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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

As máscaras, a sua avó e o repórter da GloboNews


Hoje, dia 10 de setembro de 2013, a Alerj aprovou a tal lei que proíbe o uso de máscaras em manifestações no Estado do Rio de Janeiro. É uma lei burra, antidemocrática e inconstitucional, feita de acordo com os interesses de parlamentares interessados em intimidar a população e dificultar a participação em atos públicos: máscaras, afinal, servem tanto como proteção para pessoas que não querem sufocar com spray de pimenta nem ir para a cadeia por motivos arbitrários quanto como uma forma engraçadinha de protestar. Na última grande manifestação realizada no Rio, por exemplo, não era raro encontrar máscaras de papel com a cara do governador Sérgio Cabral.
O ato em questão é o Grito dos Excluídos, que acontece anualmente no feriado de 7 de setembro, em várias cidades brasileiras. Foi a minha primeira vez lá, logo, não posso julgar o Grito de 2013 em comparação com os dos outros anos, mas achei bacana. Tinha bastante gente e espaço para as incontáveis demandas de sindicatos e movimentos sociais. Entretanto, a movimentação estava um pouco difusa e discursos mais bem definidos acabavam ofuscados por palavras de ordem chiclete, mas muitas vezes vazias. A polícia foi exemplar, como sempre, espalhando bombas e gás por todos os lados, inclusive na estação de metrô da Central. Um amiga com quem combinei de me encontrar sentiu o cheiro de pimenta dentro do vagão, pouco depois da PM ter impedido a entrada de manifestantes na tradicional parada das instituições militares, que nosso passado e presente mostram que são d-i-g-n-í-s-s-i-m-a-s de desfilar de cabeça erguida. E aí, depois que eu já tinha ido embora, aconteceu um outro problema, agora por culpa de um grupo de manifestantes: Júlio Molica, um repórter da GloboNews, foi identificado por um “ninja” e expulso do protesto sob xingamentos e pancadas. Tem vídeo pra quem duvida. Alguns queriam apagar do celular as imagens que ele havia feito. A situação só não ficou mais feia porque o rapaz foi tirado do meio da multidão por um segurança da emissora, que o acompanhava à distância, com a ajuda de um sindicalista e três advogados da OAB. Também fiquei sabendo disso tudo hoje, através do ótimo texto da professoraSylvia Moretzsohn no Observatório da Imprensa.
E daí eu fiquei confusa. Porque se antes eu queria escrever algo sobre a então potencial aprovação da lei, depois de ler sobre o repórter da GloboNews minha vontade passou a ser a de passar um sermão nessa gente que se acha super esclarecida, mas não entende o básico do funcionamento do capitalismo. Pra resolver o problema, aqui vão meus pitacos sobre os dois assuntos, que talvez não tenham tanto em comum além do contexto político em que se deram.
Vamos começar pelo menino da GloboNews, que, segundo o desinfeliz da Mídia NINJA, estava lá arriscando a vida pela Globo e por uma materiazinha. Pois bem, eu nunca gostei muito desse grito de “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Volta e meia virava para o meu namorado e fazia uma graçolice do tipo “mas a Band e o Casoy tão de boa” ou “a verdade é dura, a sua avó apoiou a ditadura”. Mas vai lá, eu entendo: as Organizações Globo são um símbolo, tanto do apoio irrestrito do empresariado e de parte da sociedade civil a um dos períodos mais traumáticos da história do Brasil quanto do monopólio da comunicação no país. E, realmente, devido ao seu poder, ela teve um papel muito mais significativo no apoio aos militares e encheu muito mais o bolso do que velhinhos e velhinhas da classe média que aproveitaram o milagre econômico para comprar um carro e mandar os filhos pros Estados Unidos. Porém, é muito fácil essa rejeição ao padrão Globo de jornalismo virar um ataque aos profissionais da empresa. E não estou falando do William Bonner, que é manda-chuva e ganha uma surra de dinheiro, mas de um repórter quase desconhecido que vai para a rua cobrir passeata pelo Skype. Já tinha visto isso acontecer outras vezes e era só uma questão de tempo para que os gritos de “pela-saco” e “ei, Globo, vai tomar no cu” escalassem para a violência física. Só que, meus queridos, a Globo pode ser escrota o quanto for, mas empregado não é igual a patrão. Se fosse, teríamos todos ido fazer escracho na porta do trocador quando a passagem aumentou, não é mesmo? O nosso sistema econômico funciona a partir da venda da força de trabalho, e todos tem contas para pagar.
Então chegamos em um outro ponto do vídeo da Mídia NINJA, que me foi apontado por uma amiga: a insistência do sujeito responsável pela gravação em chamar Molica de ninja ao invés de repórter. É, como disse essa minha amiga, uma forma de se aproveitar da situação para dar visibilidade para a marca, controlada pelo no mínimo polêmico Fora do Eixo, que, por sua vez, é controlado pelo no mínimo questionável Fábio Capilé. Mas, além disso, é também uma forma de alinhar o trabalhador à identidade ideológica da empresa. Mesmo que o rapaz da Mídia NINJA não saiba, ao chamar o repórter da GloboNews de ninja, ele apaga sua identidade como jornalista, como profissional. O repórter se torna um agente secreto, voluntariamente a serviço de uma série de posições políticas. E, se você se identifica com a ideologia da empresa e do sistema, ninguém precisa se preocupar se você está sendo explorado, não é mesmo? Não é mais do interesse de ninguém que você é mal pago, que se arrisca, que muitas vezes abandona suas próprias opiniões e que praticamente não tem escolha. Claro, você sempre pode morar nas cada vez mais criticadas casas do Fora do Eixo e ser pago em CuboCards, mas isso não parece uma alternativa assim tão agradável. Então, você tenta ganhar seu pão e crescer na profissão enquanto um monte de gente te ataca, achando que você é um avatar do Roberto Marinho.
E agora eu vou forçar a barra para criar um gancho para o próximo tópico: como dá pra ver no vídeo, muitas das pessoas que gritavam com Molica não usavam máscaras. A moral da história? Ninguém precisa de máscara para fazer merda. E nem todo mundo que usa máscara quer fazer merda. Em tempos de redes sociais, a máscara serve para que aqueles que estão na linha de frente consigam se proteger das ações de retaliação do governo e da polícia. Ninguém é anônimo: todos tem carteira de identidade, que pode ser requisitada a qualquer momento. Ao contrário da nossa polícia militar, que cobre a cara e esconde a identificação na hora de matar Amarildos e prender jovens por se organizarem para os protestos e por terem facas de pão em casa. A máscara também serve para proteger as vias respiratórias da d-e-l-i-c-i-o-s-a fragrância de pimenta com que a PM perfuma a cidade, que pode causar desde um simples incômodo até sufocamento. Ela também pode ser substituída por um lencinho, um casaco, uma camisa ou qualquer outro pedaço de pano que todos devem ter sempre à mão na hora de protestar. Mas isso não faz diferença para a lei proposta por dois deputados do PMDB. Lei que, como eu disse lá em cima, é inconstitucional: o legislativo estadual não pode tomar decisões no âmbito penal. Cabe ao governo federal decidir o que é crime e qual é a pena. Como se vê, ninguém precisa de máscara para fazer merda.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Meninas, quadrinhos e boy bands


Na última semana, duas coisas aconteceram na mídia gringa. Bom, na verdade, várias e várias coisas aconteceram na mídia gringa, assim como várias e várias coisas aconteceram na mídia nacional, mas eu vou me focar em duas, que chamaram a minha atenção pela quantidade de vezes que apareceram em meus grupos de discussão e no meu feed do Tumblr. A primeira foi uma matéria da publicaçãobritânica GQ sobre a banda One Direction. A revista – uma espécie de Trip, com matérias sobre moda, sexo e cultura voltadas para homens – ganhou o (merecido) ódio de fãs da boy band, que se sentiram ofendidas pela forma quase animalesca usada pelo repórter para descrever o público de um determinado show, composto em sua imensa maioria por meninas adolescentes, e pela entrevista com os membros do grupo, na qual o repórter insiste que um dos garotos, cujo desconforto é visível, revele o número de mulheres com quem dormiu ao longo da vida. A segunda coisa que me chamou atenção foi o debate realizadopela televisão pública americana, a PBS, com os quadrinistas Todd McFarlane,Len Wein e Gerry Conway. O painel tinha como objetivo promover uma série de documentários televisivos produzida pelo canal, que aborda a produção e o impacto das histórias em quadrinhos e a forma como elas refletem a sociedade. Questionados sobre a ausência de personagens femininas relevantes em suas páginas, os três convidados fizeram coro a um discurso que todo mundo já ouviu, desde que seja mais ou menos nerd: quadrinhos não são para meninas. Segundo McFarlane, Wein e Conway, demandas por diversidade de gênero, raça e sexualidade não são de interesse dos autores, a constante representação de personagens femininas apenas como vítimas de violência – principalmente sexual – é apenas um reflexo do mundo real e histórias em quadrinhos não servem de ponte para diálogo com o público feminino, uma vez que meninas não leem quadrinhos.
À primeira vista, os dois assuntos parecem quase que completamente desconexos. Tirando o fato de que falam sobre crianças e adolescentes do sexo feminino, não há nenhum ponto em comum entre a matéria da GQ e o painel da PBS. Mas isto não é verdade. Não foram apenas as meninas a serem colocadas na berlinda, mas seus gostos. E se o primeiro acontecimento já representa um problema de origem sexista por colocar mulheres como objetos sexuais e pela eterna distinção arbitrária entre gêneros, o que realmente houve é causa e efeito de uma outra questão: o processo de desvalorização do que é atribuído ao feminino e a imediata associação de garotas e mulheres a esses elementos culturais “de segunda categoria”.
Da fodaça Kate or Die!

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Legião Urbana nos cinemas e o que a autora acha de tudo isso


Quando Renato Russo morreu, eu tinha 8 anos de idade e cursava o que antes era a segunda série do Ensino Fundamental. Eu não sabia quem ele era. Não era muito ligada em música e o pouco que gostava se resumia a um pequeno apanhado do que as crianças da época ouviam: É o Tchan!, Spice Girls e sei lá mais o quê. Tinha uma fita da Turma da Mônica, também, e uma certa obsessão pelos LPs da trilha sonora de Pantanal. Lembro que – “Sacrilégio!”, gritarão alguns – não dava a mínima para os Mamonas Assassinas. E então Renato Russo morreu, deixando órfã uma legião de fãs da qual eu não fazia parte. Aliás, nem eu, nem (provavelmente) minha amiguinha que, alguns dias depois, apareceu com algumas músicas da Legião Urbana no walkman, acredito que copiadas dos discos dos seus primos adolescentes. E foi assim que eu descobri “Índios”, “Eduardo e Mônica”, “Ainda é Cedo” e várias outras canções de três acordes conhecidas por todo moleque de 13 anos que faz aulas de violão.
Do completo desconhecimento, passei a ser fã de Legião Urbana. Tive quase todos os discos (nunca consegui comprar “O Descobrimento do Brasil”) e tenho, ainda, uma camisa com a letra de “Há Tempos” nas costas, devidamente elevada à categoria de pijama. E assim fui ao longo do fim de minha infância e por toda a minha adolescência. Mais tarde, durante a transição para aquela época da vida que eu me recuso a chamar de idade adulta, desenvolvi um certo asco de Legião. Em parte por uma verdadeira mudança de gostos, mas também devido a um bom e velho processo de negação. E hoje? Bom, hoje, penso que consigo olhar para trás de uma forma mais honesta e emitir uma opinião mais ou menos válida sobre a Legião Urbana. E esta opinião é a seguinte: reconheço a importância da banda para a música brasileira, principalmente para o rock, e ainda gosto de muita coisa que eles fizeram, principalmente dos primeiros álbuns. Acho, por exemplo, que os versos simples de “Eduardo e Mônica” são infinitamente superiores à desnecessária pretensão de “Sereníssima”. Também acho que Renato Russo não era tão rei da cocada preta quanto costumam dizer. Tudo bem, ele escreveu coisas muito legais, mas era só um cara meio intelectual, meio de esquerda da classe média brasiliense, com uma compreensão de mundo que muitas vezes não correspondia ao quão profundo ele queria ser. Mas é claro que ainda fica também aquele restinho de nostalgia. E foi mais para honrar o passado do que qualquer coisa que eu me enfiei no cinema duas vezes quase seguidas para ver Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo.
A cinebiografia do jovem Renato Russo era, de longe, o filme para o qual eu mais tinha expectativas. Pensava em Somos Tão Jovens como uma espécie de Cazuza: uma versão encaretada, mas ainda digna de um ícone da música pop brasileira. E, olha, vou dizer que fiquei surpresa: o tanto que eles conseguiram endireitar Cazuza não chega nem perto do conservadorismo à la Senhoras de Santana que virou a vida de Renato. Não só faltam alguns baseados nos dias do jovem músico em Brasília como o diretor Antonio Carlos da Fontoura conseguiu excluir da história de um homem abertamente bissexual qualquer selinho que fosse entre pessoas do mesmo sexo. Quando Renato conhece sua primeira paixonite masculina, os dois dão uma volta, comem um podrão e terminam a noite com um... abraço. Se colocarmos a cena em contraste com a insinuação bem clara de sexo entre o cantor e sua amiga Ana Cláudia – uma fusão de várias personagens reais –, chegamos a uma diferenciação tão grande entre relacionamentos hetero e homoafetivos que Fontoura poderia ganhar o troféu Moral e Bons Costumes das mãos do líder da Tradição, Família e Propriedade.
Renato era chato. E conservador?
Mas o filme tem alguns pontos positivos. É divertido ver a turma de Renato “dançando” na Rockonha e a semelhança entre os atores e os personagens que interpretam chega a ser absurda em determinados momentos. Não apenas Thiago Mendonça é a cara e a voz do líder da Legião como Ibsen Perucci poderia substituir Dinho Ouro-Preto em shows do Capital Inicial sem que ninguém percebesse. Conrado Godoy também é o próprio Marcelo Bonfá, assim como Nicolau Villa-Lobos tem todo o jeito de Dado, embora por motivos mais óbvios que seus colegas de elenco. Entretanto, cinema não é concurso de sósias e o cuidadoso casting acaba sendo desperdiçado em uma direção de atores fraca e um roteiro sem personalidade. A trama se desenrola quase como uma série de episódios, em que não temos tempo nem informações o suficiente para conhecer qualquer personagem que não Renato, que soa muito mais chato e superficial do que a forma como certamente gostaria de ser retratado. E, no afã de fazer trocadilhos e piadinhas com títulos e trechos de canções da Legião Urbana, os diálogos soam vazios e falsos. É constrangedor o momento em que Renato diz para os amigos que está com um “tédio com um T bem grande”, abrindo as comportas para uma imensa cascata de referências desnecessárias.
Com Faroeste Caboclo, a coisa foi bem diferente. Tinha certeza de que ia assistir a uma masturbação de fã, feita por um desses caras que anda o tempo todo com o violão no ombro ou por algum mané que grita “é a porra do Brasil” no meio de “Que País é Este?”. Quando as luzes se apagaram, virei para o lado e perguntei baixinho para o meu namorado: “Você também não tem expectativa nenhuma para este filme, né?”. A resposta? “Nem um pouco”. Porém, a cada 24 quadros que passavam pela tela, nossa predisposição ao ódio ia se esvaindo. Se quase arranquei o estofado da cadeira quando os primeiros acordes da canção de Renato Russo apareceram para embalar uma cena do pequeno João de Santo Cristo com sua mãe, foi um alívio perceber que a música como um todo foi deixada apenas para os créditos finais e não foi usada como recurso fácil e sentimentalista em nenhum momento do filme. Também foi fantástico ver o esforço colocado no desenvolvimento de João, Jeremias, Maria Lúcia e todos os outros personagens acrescentados pelo diretor René Sampaio e pelos roteiristas Victor Atherino, Marcos Bernstein e José Carvalho à história de Renato Russo. Se a música tornava possível uma certa unidimensionalidade através de frases como "desde criança só pensava em ser bandido" e "desvirginava mocinhas inocentes e fingia que era crente mas não sabia rezar", ela foi cuidadosamente evitada. João de Santo Cristo é muito mais complexo e amável do que o criminoso por natureza salvo pelo amor da Legião Urbana e Jeremias continua sendo asqueroso e detestável, mas sem o toque Coração Gelado de Renato, que faz de seu vilão tão cruel que ele praticamente se casa com Maria Lúcia só de sacanagem. E toda a tensão construída através dos três personagens principais tem um final mais do que adequado. O aguardado duelo da Ceilândia não tem pipoqueiros, nem câmeras (e nem ofensas sexistas, graças), mas tem uma aridez e um colorido que provavelmente não levariam Sergio Leone às lágrimas, mas o deixariam bem contentinho.
Maria Lúcia e João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira)
Mas são as mudanças feitas na história o verdadeiro trunfo do filme, e não suas referências e seu apuro visual. O roteiro deixa de lado as partes didáticas de Renato a respeito do contexto social da época e deixa o Brasil dos anos 80 fluir de forma mais natural para dentro da trama. Ao invés do "senhor de alta classe com dinheiro na mão", temos uma rápida montagem inicial para retratar a agitação política do fim da ditadura. Ao invés de querer "falar com o presidente para ajudar toda essa gente", João sabe muito bem que é prisioneiro de sua condição, segurando edições do Correio Braziliense para sair na foto e provar que ainda está vivo. O filme também faz uma série de mudanças no universo dos personagens. Sem muita história na canção original a não ser ter ganhado o coração de João de Santo Cristo, Maria Lúcia é transformada na filha de um senador, apaixonada por um homem que jamais será aceito pelo meio racista e elitista em que vive. A jovem interpretada por Ísis Valverde também não é a "filha da puta sem vergonha" que engravida de Jeremias por supostamente não ter caráter, mas uma mulher que aceita as chantagens de um poderoso traficante para salvar a vida de seu amado. Aliás, a transformação de Jeremias em chefão do crime organizado na área nobre de Brasília também é muito bem vinda. Afinal, se tem uma coisa que não faz sentido é um sujeito aparecer do nada e derrubar um traficante tão bem estabelecido quanto João de Santo Cristo sem enfrentar qualquer problema. Com algumas mudanças, os personagens de Renato Russo funcionam de um jeito que eu nunca achei que fosse possível. Não são perfeitos, claro: Maria Lúcia poderia não ser tão Madonna sofredora e Jeremias poderia ser um pouquinho mais humano, às vezes. Mas ainda assim são bem construídos o suficiente para tirar o medo do começo da sessão e garantir um puta filme. E um bom faroeste, até.
Jeremias (Felipe Abib)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Tem que ser sobre 20 centavos



            Um dia, eu saí de casa e a passagem estava custando R$2,95. Eu não soube do reajuste de antemão. Não vi nenhum aviso, nenhuma matéria de jornal, nada. Fui pega totalmente de surpresa pelo acréscimo de 20 centavos ao valor já abusivo cobrado pelas companhias de transporte público. Por sorte, estava munida de um Riocard cheinho e consegui pagar a passagem. Do contrário, talvez estivesse com o dinheiro contado e muito provavelmente não chegaria a tempo no evento que precisava cobrir.
            Alguns dias depois, protestos contra o aumento dos ônibus começaram a eclodir por diversas cidades brasileiras. Em todas elas, era fácil ver a revolta da população que enfrenta diariamente um serviço de transporte precário e superfaturado enquanto as obras da Copa de 2014 vão ficando cada vez mais caras. A situação se agrava conforme olhamos para as periferias dessas grandes cidades: em uma matéria da Folha, um trabalhador da construção civil contava que precisava pular refeições para arcar com o custo da passagem, não coberto pelos patrões. Contra todas essas injustiças que alimentam umas às outras, um movimento mais ou menos espontâneo se formou, a princípio em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e posteriormente se expandindo para o resto do país e até para cidades menores: Niterói, Santos, Londrina, Juiz de Fora... Um a um, municípios de Norte a Sul do país tiveram suas ruas tomadas por manifestantes, que agora exigiam muito mais do que o passe livre ou a redução das passagens.
            Foi por causa de São Paulo. Outras pessoas podem apontar outros motivos, claro, mas, na minha opinião, o motivo pelo qual os protestos contra o reajuste ganharam tantos adeptos e tiveram suas pautas ampliadas foi a violência com a qual a polícia lidou com o protesto do dia 13 de junho na capital paulista, com tiros de balas de borracha, truculência e todo tipo de abuso. Giuliana Vallone, a repórter da Folha que se tornou símbolo ao levar um tiro no olho, vai recuperar a visão – o mesmo não pode ser dito do fotógrafo Sérgio Silva, da agência Futura Press, que não ganhou tanto espaço nos telejornais e nas redes sociais. Em um bar perto da Avenida Paulista, um casal foi espancado por PMs por ter participado do ato que acabara de acontecer. Uma jovem corajosa tornou público seu relato de agressão sexual: um policial a obrigou a tirar a camisa enquanto a chamava de vadia e passava o cassetete pelos seus seios. Tudo isso despertou uma sensação generalizada de raiva e dor e fez com que muita gente que fecha os olhos para os abusos cometidos diariamente nas favelas brasileiras finalmente visse o horror que representa a nossa Polícia Militar.
            E, por um tempo, foi muito bom. Foi lindo ver toda aquela gente na rua finalmente se envolvendo em um movimento que, em qualquer outra situação, seria apenas de algumas centenas ou de poucos milhares. Até que ontem estive entre as mais ou menos 100 mil pessoas que marcharam da Candelária até a Cinelândia, no Rio de Janeiro, e o que eu vi passou longe de ser o cenário político mais animador do mundo. Adianto que não estive com o pessoal que foi para a Alerj, mas não vejo baderna nenhuma em pichar as paredes da assembleia e encurralar policiais – é apenas um reflexo das barbaridades perpetradas pelos governos Paes e Cabral contra os índios da Aldeia Maracanã, os alunos da Escola Friendenreich, os jovens que cercaram o Maracanã no último domingo e tantos outros. Porém, não vejo a validade em incendiar carros de Deus sabe quem e em impedir a passagem do caminhão de bombeiros, presente apenas para conter o fogo e tratar dos feridos. Saí antes de toda essa confusão, porém, decepcionada com o esvaziamento político da manifestação, assim como meus companheiros de passeata. Em um estranho clima ufanista, pessoas se enrolavam na bandeira do Brasil e cantavam “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Lá na frente, um estandarte dos integralistas do MV-Brasil se fazia visível. Novatos no mundo das mobilizações políticas e das noções básicas de fotografia gritavam “sem vandalismo” para quem subia em postes com máquinas fotográficas nas mãos para fazer uma daquelas fotos que todo mundo adora da multidão vista de cima. Outros gritavam “Sem partido!” e “Vai tomar no cu!” para manifestantes que carregavam bandeiras do PSOL, do PCB... Soube que um militante do PSTU foi espancado e teve sua bandeira roubada e queimada por gente que marchava ao seu lado alguns segundos antes. Mas o que mais me marcou foi a cena de completo descaso pela integridade humana que presenciei na porta do Theatro Municipal: uma menina apontava e gritava em tom de denúncia, anunciando a presença de dois jornalistas das Organizações Globo que andavam sem crachá. Vendo a hora em que alguém ia jogar um pedaço de pedra portuguesa na cabeça de um daqueles dois, dando início a um linchamento em praça pública, me meti na discussão para que eles pudessem ir embora. “Eu também sou jornalista!”, gritava a menina, com o dedo na minha cara. “Eu me demiti de três empregos porque manipulavam as minhas matérias!”. Que legal, cara! Queria muito viver nesse seu mundo mágico onde não existem contas para pagar e todos podemos escolher nossos empregos livremente de acordo com nosso alinhamento ideológico.
            É claro que ainda tinha muita gente boa e interessada naquela passeata, mas muitas das pessoas que vi eram meros reflexos dessa menina: incapazes de reconhecer seus inimigos, em busca apenas de confusão ou de um Judas grande o suficiente para receber todo o ódio da população e fácil de bater. Qual é a lógica de proclamar o fim da divisão entre esquerda e direita e rechaçar pequenos partidos enquanto deixa versões de fascismo correrem soltas por aí? Não pertenço a partido algum e fico indignada quando grupos ligados a estas instituições monopolizam o discurso de manifestações. Como muitos, tenho uma certa aversão ao envolvimento partidário. Porém, é assim que muita gente se mobiliza. E essas pessoas tem o direito de ver suas organizações representadas, assim como integrantes de outros grupos, como diretórios estudantis e sindicatos. Mas o quê? Você acha que o PSOL, o PCB e o PSTU estão lá para pegar carona no seu ato? Pois fique sabendo que, quer a gente goste, quer não, é esse pessoal que faz com que manifestações como essa saiam do tuitaço e da petição do Avaaz para ganhar as ruas. E são eles, também, que continuam lá depois que acaba a modinha do protesto e o grosso dos ativistas vai para casa. Partido não é feito só de deputado ladrão: é também formado por gente que se envolve, que participa e que busca diálogo com a população. E, em meio a toda essa confusão, lá se vai a pauta do protesto. “Não é só pelos 20 centavos”, dizem cartazes e fotos no Facebook. Mas então é pelo quê? “Pelo investimento do dinheiro da Copa na saúde e na educação”. Agora que os estádios já estão prontos? “Pelo impeachment da Dilma”. Oi? De onde veio isso? “Contra a corrupção”. Esse é o meu preferido! Tem gente que adora protestar contra a corrupção, como se fosse uma demanda política válida e não um abstrato conceito moral. É como botar uma roupa branca e abraçar a Lagoa Rodrigo de Freitas para pedir paz. O que é paz, para você? O que você está pedindo? Educação, saúde e redistribuição de renda ou mais pancadaria na favela para evitar roubo de iPhone no asfalto? Já vi pelo Facebook gente querendo incluir até a redução da maioridade penal na pauta dos protestos. Essa demanda não é minha e não vou ficar calada enquanto me empurram goela abaixo exigências que eu acho erradas. Senão eu também posso incluir o que eu quiser na pauta do movimento!
            Com brigas internas e completa falta de direção, as manifestações tão lindas que percorrem o Brasil vão se diluindo e se transformando em uma coisa disforme, que não pede nada e não apresenta ameaça nenhuma a ninguém. E aí as pessoas se apaixonam pelo mea culpa do Arnaldo Jabor e a súbita mudança de discurso da mídia enquanto meninos e meninas de 19 anos continuam sendo presos arbitrariamente. E pelo quê? É para que tudo isso não seja em vão que o movimento precisa recuperar seu foco. Os protestos precisam voltar seus olhos para a questão do transporte público e o modelo exclusor de cidade para o qual ele contribui ao invés de ficar rodando a cabeça para todos os lados. As manifestações tem que saber para onde estão indo, ter nas pontas das línguas o que estão pedindo. Elas tem que ser sobre os 20 centavos. E toda a violência que essas moedinhas carregam.

terça-feira, 19 de março de 2013

Pensando um pouco sobre Pietá: amor, agonia e capitalismo

Semana passada não teve post. Em meio a questões para colocar a vida em ordem, acabei não escrevendo nenhum conto e não terminando as séries que eu queria terminar para comentar por aqui. Os dias se passaram e meu ritmo produtivo continuou na mesma estagnação. Porém, como nem só de obrigações e tédio vive a blogueira, consegui achar uma brecha no tempo para ir ao cinema. Vi Pietá, filme de Kim Ki-duk que saiu vitorioso do último Festival de Veneza. Não conheço muita coisa do diretor. Antes da semana passada, só tinha visto dois de seus 18 longas: Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera e Casa Vazia, ambos bem diferentes de seu novo trabalho. O resultado? Bom, depois de mais de 40 minutos de dúvida, comecei finalmente a gostar do que estava vendo. Não foi fácil e esta conclusão só se tornou definitiva depois que eu deixei a sala de cinema, mas Pietá é bom. Muito bom. E, agora, depois dessa introduçãozinha autoexplicativa, vamos ao porquê.

 
Pietá começa como uma porrada no estômago. Os minutos iniciais são difíceis de digerir, tamanha a quantidade de violência contida em apenas algumas cenas. Muito embora o derramamento de sangue fique fora da tela, o que vemos é suficiente para que nossa imaginação preencha as lacunas. Somado às tripas dos animas cozinhados para o almoço espalhadas pelo banheiro do personagem principal e ao jogo de dardos complementado com o desenho de uma mulher, o horror das primeiras sequências formam a imagem do protagonista Kang-do: um monstro. Empregado por uma companhia de agiotagem, Kang-do atua como cobrador em uma região urbana e miserável da Coreia do Sul. Seu método consiste em aleijar os clientes incapazes de arcar com as altas taxas de juros cobradas pela empresa. Assim, Kang-do pode recolher o dinheiro do seguro e garantir o sucesso financeiro de seus empregadores.


Um dia, voltando para casa, Kang-do começa a ser seguido por uma mulher que diz ser a mãe que o abandonou quando ele era apenas um bebê. Insistente e estoicamente, a mulher força sua entrada na vida de seu suposto filho com a desculpa de recuperar o tempo perdido e pagar pelo crime de ter abandonado Kang-do e, assim, contribuído para transformá-lo no monstro dos primeiros minutos de filme. O ódio e a resistência de Kang-do – que chega ao ponto de tentar estuprar sua mãe em potencial – aos poucos se transforma em resignação até culminar em um amor que o leva à uma infância tardia, transitando na fronteira com o edipiano e desfuncional. E, enquanto dava uma pesquisada no Google para fazer este post, achei comentários de gente falando que o filme deveria ter ficado por aí. Que o foco de Kim Ki-duk deveria ter sido a relação de Kang-do com a mãe que volta à sua vida. Que o filme perde força quando os fios da trama começam a se desenrolar. Mas o filme não fica por aí. Ki-duk não deixa sua narrativa estagnar na “humanização” de Kang-do através do amor materno. Ki-duk não deixa seu filme morrer em uma discussão vazia e sentimentalista digna desses recadinhos de “mais amor por favor” que deram de pipocar pelos muros de uns tempos pra cá. E, se deixasse, eu certamente não teria começado o post dizendo que o filme é bom.
Nessa entrevista para o Hollywood Reporter, as intenções de Kim Ki-duk com seu Pietá ficam bem mais claras: “Pietá aborda as dissonâncias dos relacionamentos humanos em um sistema capitalista extremo, mostrando como a família é destruída e como o dinheiro cria desconfiança entre as pessoas. Acho que é uma experiência universal, não apenas na Coreia do Sul, mas na Europa e nos EUA."

E pode incluir o resto do mundo, também.
Através da dinâmica de poder entre Kang-do e suas vítimas – e, posteriormente, entre Kang-do e seus empregadores –, Kim Ki-duk constrói a imagem do desmantelo das relações humanas através da crescente importância do dinheiro e de um sistema de valores que coisifica seus participantes. No centro do retrato visceral pintado por Kim Ki-duk estão as mulheres que se veem vítimas desta sociedade. Ao mesmo tempo subjugadas por uma cultural extremamente patriarcal, as mães e esposas dos clientes de Kang-do são as que mais sofrem com o interminável esquema de dívidas e cobranças pelo qual seus filhos e maridos foram aprisionados. Muito embora não tenham braços e pernas decepados, são elas que, incapazes como crianças de terem uma voz ativa dentro da sociedade, servem de binóculo para que a plateia veja de perto a dor e a agonia das vítimas desse novo mundo. Humilhadas por seus próprios maridos, abandonadas, desesperadas e deixadas para morrer, elas veem tudo o que tem ser arrancado de suas vidas, desde os seus sentimentos até as chances de um prato de comida no dia seguinte. É através do horror vivido por essas mulheres que identificamos os significados de Pietá. E é com o horror vivido por essas mulheres que Kang-do deve buscar sua redenção. Para isto, o personagem precisa desenvolver os sentimentos atrofiados por seu abandono e sua íntima relação com o dinheiro e o poder. Ao invés de um filme sobre o amor e seu poder de transformação, Kim Ki-duk conta uma história de sofrimento crescente que culmina em uma compreensão da culpa seguida por uma busca por reparação que o título repleto de significados religiosos já antecipava. E dá-lhe mais uma porrada no estômago. Afinal, não há espaço para carinho em um mundo feito de socos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Madoka Magica: Anime e ser uma menina de 13 anos


 Nas minhas andanças pelo Tumblr, me deparei com este texto, em inglês, que fala um pouco sobre a importância do gênero Mahou Shoujo, ou Garotas Mágicas, para meninas fãs de anime. O mundo dos quadrinhos e animações japoneses é algo do qual me afastei conforme minha adolescência chegou ao fim, mas que foi muito significativo para as duas primeiras etapas da minha vida. Então, resolvi dar uma olhada no texto, que trata de uma série de apenas 12 episódios chamada Puella Magi Madoka Magica. A autora se debruça principalmente sobre a representação da adolescência feminina no anime e eu, bastante interessada na visão colocada por ela, acabei adicionando Madoka Magica à minha lista de coisas para assistir.
Da esquerda para a direita: Kyoko, Sayaka, Mami, Homura e Madoka
  A premissa inicial é a mesma de outras séries de Mahou Shoujo, como Sailor Moon, Guerreiras Mágicas de Rayearth e Sakura Card Captors: um bichinho fofinho aparece para a personagem principal e revela que ela foi escolhida para lutar contra alguma espécie de mal. Neste caso, é o misto de raposa e coelho Kyubey que diz para a protagonista Madoka que ela tem potencial para se tornar uma Magical Girl e lutar contra “bruxas”, seres monstruosos que criam labirintos invisíveis aos olhos humanos e responsáveis por milhões de mortes sem explicação. Para se transformar, tudo o que Madoka precisa fazer é um pedido, que será realizado por meio de um contrato com a estranha criaturinha. Entre as outras personagens da série, estão Mami e Kyoko, duas Magical Girls veteranas, Sayaka, amiga de Madoka, que troca sua vida de adolescente normal pela saúde de seu amado, e Homura, uma aluna de transferência que faz de tudo para que Madoka não se transforme em uma Magical Girl.
 
Kyubey
Porém, Madoka Magica é, antes de tudo, uma desconstrução do gênero. Ao contrário de suas séries irmãs, Madoka Magica não coloca a transformação de suas protagonistas em garotas com poderes mágicos como algo heróico e desejável. Ao longo dos episódios, são reveladas as dúbias intenções de Kyubey e a verdadeira origem das bruxas, nada mais do que Magical Girls que sucumbiram à dor e ao sofrimento causados pela interminável luta e pelas conseqüências de seus próprios desejos. Entre as companheiras de Madoka, Mami se vê completamente sozinha após a morte de sua família, assim como Kyoko, que precisa lidar com o horror em que se transformou sua vida enquanto Sayaka chora a perda do garoto que ama ao mesmo tempo em que carrega o fardo de ter sido enganada por Kyubey e de não ser mais humana.
Em seu tratamento do inferno que se revela ser a vida de Magical Girl, Madoka Magica pinta um retrato da dor que é crescer, especialmente quando você é uma menina. Claro, ser adolescente é horrível para todo mundo, mas a experiência feminina tem determinadas particularidades que os garotos não vivem. A demonização da sexualidade; o abuso quase cotidiano por parte de velhos tarados no meio da rua quando seu corpo e sua mente sequer estão plenamente desenvolvidos; o conflito entre os papeis dicotômicos de “santa” e “puta” impostos pela sociedade; o cruel e irreal padrão de beleza; a competição entre meninas igualmente inseguras gerada por estes fatores e representada na série pela constante luta contra as “bruxas”. Quando Kyubey diz que a maior carga emocional do universo é encontrada em mulheres terrestres em sua segunda etapa de vida, é uma declaração análoga à da personagem Cecilia Lisbon, de As Virgens Suicidas, para o médico que não entende seu sofrimento: “Obviamente, o doutor nunca foi uma menina de 13 anos”. Soma-se à angústia da adolescência o processo opressivo de se tornar mulher e, mais uma vez como as irmãs Lisbon de As Virgens Suicidas, as personagens definham em sua prisão social, representada no filme de Sofia Coppola e no livro de Jeffrey Eugenides pela casa familiar e, no anime, pelo mundo mágico que se abre para as meninas. 

É impossível se identificar com as personagens de Madoka Magica se essa não foi sua experiência? Claro que não! Embora tenhamos uma percepção de que histórias femininas são apenas para uma fatia da sociedade, enquanto as masculinas a representam como um todo – embora leiamos Harry Potter como uma série para crianças e adolescentes, enquanto Jogos Vorazes é para meninas -, basta um pouco de empatia para compreender os sentimentos das garotas e o sacrifício final de Madoka para diminuir o máximo possível o sofrimento de suas amigas, mesmo não sendo capaz de anulá-lo. É uma história de companheirismo entre mulheres que não passa pelo shopping center e que trata suas personagens com uma humanidade ainda difícil de encontrar em produtos infanto-juvenis. São também dignas de nota a professora neurótica constantemente humilhada pelo namorado por ser velha e por não fritar os ovos “do jeito certo” e a mãe de Madoka, uma executiva de sucesso que não é nem uma supermulher, nem negligente: é apenas uma mãe que trabalha. E é doloroso notar que, em pleno século XXI, isto ainda é difícil de achar em obras de ficção, tanto para crianças quanto para adultos.
E o visual dos labirintos é fantástico.
Porém, em uma série que vive da subversão de clichês, é irônico que o mais difícil para o espectador padrão seja passar por cima dos problemas tradicionais dos animes. A estranha erotização de garotinhas colegiais é praticamente inexistente em Madoka Magica, mas as vozinhas estridentes, os diálogos forçados e a incessante obsessão pela personagem principal, no melhor estilo “Seya e os outros cavaleiros”, estão lá, em maior ou menor grau. Para quem teve uma parte considerável da vida regada a uma dieta televisiva japonesa, é fácil passar por cima destes problemas, mas a tarefa pode ser meio complicada para quem perdeu o hábito de ver animes quando ganhou o diploma do primário. 
Mas o visual dos labirintos continua sendo fantástico.

 nem fazendo uma declaraçerrestres em sua segunda etapa de vida, ele n no meio da rua quando seu corpo e sua mente n