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terça-feira, 16 de julho de 2013

A Legião Urbana nos cinemas e o que a autora acha de tudo isso


Quando Renato Russo morreu, eu tinha 8 anos de idade e cursava o que antes era a segunda série do Ensino Fundamental. Eu não sabia quem ele era. Não era muito ligada em música e o pouco que gostava se resumia a um pequeno apanhado do que as crianças da época ouviam: É o Tchan!, Spice Girls e sei lá mais o quê. Tinha uma fita da Turma da Mônica, também, e uma certa obsessão pelos LPs da trilha sonora de Pantanal. Lembro que – “Sacrilégio!”, gritarão alguns – não dava a mínima para os Mamonas Assassinas. E então Renato Russo morreu, deixando órfã uma legião de fãs da qual eu não fazia parte. Aliás, nem eu, nem (provavelmente) minha amiguinha que, alguns dias depois, apareceu com algumas músicas da Legião Urbana no walkman, acredito que copiadas dos discos dos seus primos adolescentes. E foi assim que eu descobri “Índios”, “Eduardo e Mônica”, “Ainda é Cedo” e várias outras canções de três acordes conhecidas por todo moleque de 13 anos que faz aulas de violão.
Do completo desconhecimento, passei a ser fã de Legião Urbana. Tive quase todos os discos (nunca consegui comprar “O Descobrimento do Brasil”) e tenho, ainda, uma camisa com a letra de “Há Tempos” nas costas, devidamente elevada à categoria de pijama. E assim fui ao longo do fim de minha infância e por toda a minha adolescência. Mais tarde, durante a transição para aquela época da vida que eu me recuso a chamar de idade adulta, desenvolvi um certo asco de Legião. Em parte por uma verdadeira mudança de gostos, mas também devido a um bom e velho processo de negação. E hoje? Bom, hoje, penso que consigo olhar para trás de uma forma mais honesta e emitir uma opinião mais ou menos válida sobre a Legião Urbana. E esta opinião é a seguinte: reconheço a importância da banda para a música brasileira, principalmente para o rock, e ainda gosto de muita coisa que eles fizeram, principalmente dos primeiros álbuns. Acho, por exemplo, que os versos simples de “Eduardo e Mônica” são infinitamente superiores à desnecessária pretensão de “Sereníssima”. Também acho que Renato Russo não era tão rei da cocada preta quanto costumam dizer. Tudo bem, ele escreveu coisas muito legais, mas era só um cara meio intelectual, meio de esquerda da classe média brasiliense, com uma compreensão de mundo que muitas vezes não correspondia ao quão profundo ele queria ser. Mas é claro que ainda fica também aquele restinho de nostalgia. E foi mais para honrar o passado do que qualquer coisa que eu me enfiei no cinema duas vezes quase seguidas para ver Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo.
A cinebiografia do jovem Renato Russo era, de longe, o filme para o qual eu mais tinha expectativas. Pensava em Somos Tão Jovens como uma espécie de Cazuza: uma versão encaretada, mas ainda digna de um ícone da música pop brasileira. E, olha, vou dizer que fiquei surpresa: o tanto que eles conseguiram endireitar Cazuza não chega nem perto do conservadorismo à la Senhoras de Santana que virou a vida de Renato. Não só faltam alguns baseados nos dias do jovem músico em Brasília como o diretor Antonio Carlos da Fontoura conseguiu excluir da história de um homem abertamente bissexual qualquer selinho que fosse entre pessoas do mesmo sexo. Quando Renato conhece sua primeira paixonite masculina, os dois dão uma volta, comem um podrão e terminam a noite com um... abraço. Se colocarmos a cena em contraste com a insinuação bem clara de sexo entre o cantor e sua amiga Ana Cláudia – uma fusão de várias personagens reais –, chegamos a uma diferenciação tão grande entre relacionamentos hetero e homoafetivos que Fontoura poderia ganhar o troféu Moral e Bons Costumes das mãos do líder da Tradição, Família e Propriedade.
Renato era chato. E conservador?
Mas o filme tem alguns pontos positivos. É divertido ver a turma de Renato “dançando” na Rockonha e a semelhança entre os atores e os personagens que interpretam chega a ser absurda em determinados momentos. Não apenas Thiago Mendonça é a cara e a voz do líder da Legião como Ibsen Perucci poderia substituir Dinho Ouro-Preto em shows do Capital Inicial sem que ninguém percebesse. Conrado Godoy também é o próprio Marcelo Bonfá, assim como Nicolau Villa-Lobos tem todo o jeito de Dado, embora por motivos mais óbvios que seus colegas de elenco. Entretanto, cinema não é concurso de sósias e o cuidadoso casting acaba sendo desperdiçado em uma direção de atores fraca e um roteiro sem personalidade. A trama se desenrola quase como uma série de episódios, em que não temos tempo nem informações o suficiente para conhecer qualquer personagem que não Renato, que soa muito mais chato e superficial do que a forma como certamente gostaria de ser retratado. E, no afã de fazer trocadilhos e piadinhas com títulos e trechos de canções da Legião Urbana, os diálogos soam vazios e falsos. É constrangedor o momento em que Renato diz para os amigos que está com um “tédio com um T bem grande”, abrindo as comportas para uma imensa cascata de referências desnecessárias.
Com Faroeste Caboclo, a coisa foi bem diferente. Tinha certeza de que ia assistir a uma masturbação de fã, feita por um desses caras que anda o tempo todo com o violão no ombro ou por algum mané que grita “é a porra do Brasil” no meio de “Que País é Este?”. Quando as luzes se apagaram, virei para o lado e perguntei baixinho para o meu namorado: “Você também não tem expectativa nenhuma para este filme, né?”. A resposta? “Nem um pouco”. Porém, a cada 24 quadros que passavam pela tela, nossa predisposição ao ódio ia se esvaindo. Se quase arranquei o estofado da cadeira quando os primeiros acordes da canção de Renato Russo apareceram para embalar uma cena do pequeno João de Santo Cristo com sua mãe, foi um alívio perceber que a música como um todo foi deixada apenas para os créditos finais e não foi usada como recurso fácil e sentimentalista em nenhum momento do filme. Também foi fantástico ver o esforço colocado no desenvolvimento de João, Jeremias, Maria Lúcia e todos os outros personagens acrescentados pelo diretor René Sampaio e pelos roteiristas Victor Atherino, Marcos Bernstein e José Carvalho à história de Renato Russo. Se a música tornava possível uma certa unidimensionalidade através de frases como "desde criança só pensava em ser bandido" e "desvirginava mocinhas inocentes e fingia que era crente mas não sabia rezar", ela foi cuidadosamente evitada. João de Santo Cristo é muito mais complexo e amável do que o criminoso por natureza salvo pelo amor da Legião Urbana e Jeremias continua sendo asqueroso e detestável, mas sem o toque Coração Gelado de Renato, que faz de seu vilão tão cruel que ele praticamente se casa com Maria Lúcia só de sacanagem. E toda a tensão construída através dos três personagens principais tem um final mais do que adequado. O aguardado duelo da Ceilândia não tem pipoqueiros, nem câmeras (e nem ofensas sexistas, graças), mas tem uma aridez e um colorido que provavelmente não levariam Sergio Leone às lágrimas, mas o deixariam bem contentinho.
Maria Lúcia e João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira)
Mas são as mudanças feitas na história o verdadeiro trunfo do filme, e não suas referências e seu apuro visual. O roteiro deixa de lado as partes didáticas de Renato a respeito do contexto social da época e deixa o Brasil dos anos 80 fluir de forma mais natural para dentro da trama. Ao invés do "senhor de alta classe com dinheiro na mão", temos uma rápida montagem inicial para retratar a agitação política do fim da ditadura. Ao invés de querer "falar com o presidente para ajudar toda essa gente", João sabe muito bem que é prisioneiro de sua condição, segurando edições do Correio Braziliense para sair na foto e provar que ainda está vivo. O filme também faz uma série de mudanças no universo dos personagens. Sem muita história na canção original a não ser ter ganhado o coração de João de Santo Cristo, Maria Lúcia é transformada na filha de um senador, apaixonada por um homem que jamais será aceito pelo meio racista e elitista em que vive. A jovem interpretada por Ísis Valverde também não é a "filha da puta sem vergonha" que engravida de Jeremias por supostamente não ter caráter, mas uma mulher que aceita as chantagens de um poderoso traficante para salvar a vida de seu amado. Aliás, a transformação de Jeremias em chefão do crime organizado na área nobre de Brasília também é muito bem vinda. Afinal, se tem uma coisa que não faz sentido é um sujeito aparecer do nada e derrubar um traficante tão bem estabelecido quanto João de Santo Cristo sem enfrentar qualquer problema. Com algumas mudanças, os personagens de Renato Russo funcionam de um jeito que eu nunca achei que fosse possível. Não são perfeitos, claro: Maria Lúcia poderia não ser tão Madonna sofredora e Jeremias poderia ser um pouquinho mais humano, às vezes. Mas ainda assim são bem construídos o suficiente para tirar o medo do começo da sessão e garantir um puta filme. E um bom faroeste, até.
Jeremias (Felipe Abib)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Jogos Vorazes, ou: Violência, drogas e classificação indicativa

Este post é parte de uma série de dois textos sobre a série Jogos Vorazes. Para ler o primeiro, clique aqui.

            Enquanto me dirigia ao caixa da livraria com uma cópia do primeiro volume de Jogos Vorazes nas mãos, uma menina de mais ou menos uns 15 anos apontou para o meu livro e, com um sorriso de orelha a orelha, disse que era muito bom. Foi na época da estreia do filme e ela usava uma camisa temática e um broche com a figura de um tordo, ave símbolo da revolução narrada por Suzanne Collins. Pouco tempo depois, tentei conversar com alguns amigos sobre a trama – os mesmos amigos com quem assisti ao último filme da saga Harry Potter a título de rito de passagem – e descobri que eles nunca tinham sequer ouvido falar do hit infanto-juvenil que estava sendo vendido como o novo Crepúsculo. E eu comecei a me questionar se não estaria velha demais para hits infanto-juvenis. Eu, que rio litros com Bob Esponja e A Nova Onda do Imperador. E então eu percebi que ninguém se questiona se está velho demais para Bob Esponja e A Nova Onda do Imperador. Praticamente todos se sentem no direito de conservar gostos infantis, ao passo que fazem pouco daqueles característicos da adolescência. Pode ser uma questão de rejeição, típica de uma mudança de fase para a idade adulta. Mas também pode ser porque a infância conserva uma aura mágica de esperteza e inocência aos olhos da nossa sociedade, enquanto a adolescência é vista com um certo ar de ridículo, como uma etapa da vida da qual nos deveríamos envergonhar, quando nos importávamos apenas com namoros, panelinhas e o próximo filme da série American Pie (referência que, daqui a alguns anos, ninguém mais vai entender...).
Eu tinha 11 anos em 1999. É, tempo...
            Entre as representações midiáticas que contribuem para esta visão simplória da adolescência, estão exemplos como a novelinha teen Malhação e a própria saga Crepúsculo, com a qual Jogos Vorazes foi amplamente comparada. A narrativa pouco variada e maniqueísta, a falta de complexidade dos temas e o foco quase que exclusivo em relacionamentos românticos só tacam mais lenha na fogueira de quem vê os jovens entre a infância e a idade adulta apenas como criaturinhas irritantes e inócuas. Mas Suzanne Collins não faz parte deste clubinho. Como tratado no post anterior, a autora não tem medo de colocar diante de seus leitores questões como miséria, violência, exploração da pobreza e privilégios de classe, o que levou grupos conservadores a pressionar escolas públicas pela remoção dos livros de suas bibliotecas, saindo-se muitas vezes vitoriosos. E muitos dos assuntos abordados por Collins tiveram apenas a ganhar com a adaptação para a tela grande, mas alguns detalhes importantíssimos acabaram ficando de fora – detalhes que vão muito além da perna amputada de Peeta e que poderiam custar aos filmes seguintes sua classificação PG-13 (equivalente ao nosso “12 anos”, embora o filme tenha sido vetado para menores de 14, no Brasil).

             É o caso do desenvolvimento de personagens como a própria Katniss, Haymitch Abernathy e os dois antigos vencedores do Distrito 6 convocados para o Massacre Quartenário. Nos três casos, o estresse pós-traumático causado pelos Jogos resulta em um consumo abusivo de algum tipo de droga como válvula de escape. Enquanto os dois tributos sem nome do distrito responsável pela produção de fármacos se agarram a suas doses de morfina para permanecer alheios à realidade, Katniss encontra refúgio na bebida, assim como Haymitch. O mentor dos jovens escolhidos do Distrito 12 teve o alcoolismo apagado de sua versão para celuloide, mas será difícil mantê-lo aparentemente sóbrio nas telas a partir do momento em que seu problema se torna fundamental para a trama. A complicação aumenta devido ao realismo com que Collins trata os vícios de seus personagens: ao invés de ocultar uma campanha antidrogas nas entrelinhas de seus três volumes, com ex-viciados caminhando alegremente sob o sol, a autora mostra sua Katniss pós-alcoolismo como ainda incapaz de superar a dor a que foi submetida e recuperar o contato com as pessoas e o mundo ao seu redor.
Haymitch Abernathy (Woody Harrelson)
            Collins também não poupa seus personagens dos efeitos das torturas promovidas pela Capital contra seus opositores. Enquanto, em Harry Potter, os pais de Neville Longbottom sucumbiram à loucura devido a um feitiço de efeitos vagamente descritos, Peeta Mellark e Johanna Mason, capturados pelo governo após a revolta do Massacre Quartenário, apresentam sinais bastante descritivos dos suplícios pelos quais passaram. Enquanto o jovem companheiro de Katniss na arena dos 74os Jogos Vorazes é submetido a uma lavagem cerebral digna de Laranja Mecânica, a antipática vencedora do Distrito 5 desenvolve um pavor descontrolado de água, que a impede mesmo de tomar um simples banho. É uma analogia ao bom (?) e velho (ô!) waterboarding, ou afogamento, tão comum nos relatos dos ex-prisioneiros de Guantánamo e de outras bases americanas usadas durante a chamada “Guerra ao Terror”. O governo do presidente Snow é responsável, também, pela criação de Avox, escravos com as línguas cortadas que cuidam de inúmeros serviços no luxuoso mundo da Capital. Punidos por atos de revolta, os Avox se encaixam perfeitamente na atmosfera de Império Romano que Collins aplica a seu futuro distópico, com Ceasars e Senecas e jogos em arenas. Aos crimes da Capital, podemos acrescentar ainda a violência sexual cometida contra os moradores dos distritos tanto na forma de repressão policial, como é o caso do Pacificador Cray, que troca favores sexuais por comida com jovens do Distrito 12, quanto na de uma política institucionalizada de agenciamento de jovens tributos para a classe dominante de Panem, como descobrimos através da história de Finnick Odair, vencedor do Distrito 4. Ao contrário da ameaça de estupro implicitada por J.K. Rowling nas palavras do lobisomem Fenrir Greyback para Hermione Granger e da metáfora para abstinência sexual dos vampiros de Stephenie Meyer, Collins não deixa margens para interpretações. Em parte porque confia no seu público, mais velho que o de Harry Potter, mas principalmente porque não há espaço para representações mágicas em seu mundo.
Johanna Mason (Jenna Malone)
            Porém, o que menos se assenta sob a maquiagem hollywoodiana, na minha opinião, não é a a crudeza de Collins para com o público adolescente, mas o estranho final de sua saga. Nesse mundão velho sem porteira que é a internet, já vi gente reclamando que o final não é satisfatório por não apresentar uma resolução e gente dizendo que A Esperança, último livro da série, tem uma resolução padrão e desleal com sua protagonista, com filhinhos e casamento. Concordo em parte com o primeiro argumento, embora ache que é justamente a falta de resolução que torna o final de Jogos Vorazes tão fantástico. Com o antigo gamemaker Plutarch Heavensbee como sua eminência parda, a nova democracia de Panem é frágil e tão centrada na mídia quanto a ditadura que a precedeu. A explicação de que as coisas estão bem por enquanto, mas que podem degringolar a qualquer momento, e o novo reality show previsto para começar em breve transformam a trilogia de Collins quase em uma versão para crianças de O Leopardo, filme de Lucchino Visconti sobre a unificação italiana, baseado em um romance que nunca li de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Às vezes, as coisas precisam mudar para continuar as mesmas.” Quanto ao último ponto contrário à série, é ingenuidade afirmar que Jogos Vorazes tem um final feliz padrão. Katniss tem sua vida destruída tanto pelo cruel regime da Capital quanto pela revolução que ajudou a consolidar. Sua família e seus amigos estão para sempre perdidos, de um jeito ou de outro, e nada mais natural que ela encontre conforto apenas na pequena família formada por Haymitch e Peeta nos escombros do Distrito 12. E, no que diz respeito a filhos, Katniss nunca disse que não queria tê-los, apenas que se recusava a gerar mais vidas para serem ceifadas pela Capital. Logo, não é trair sua caracterização fazer com que ela se torne mãe. Até mesmo porque, “dezenove anos mais tarde”, Katniss não está em uma plataforma de trem, sorrindo e curtindo os tempos de paz. E é isso que soa mais estranho para um blockbuster de verão.

“My children, who don't know they play on a graveyard.
Peeta says it will be okay. (…) We can make them understand in a way that will make them braver. But one day I'll have to explain about my nightmares. Why they came. Why they won't ever really go away. (…)
That's when I make a list in my head of every act of goodness I've seen someone do. It's like a game. Repetitive. Even a little tedious after more than twenty years.
But there are much worse games to play.”

terça-feira, 30 de abril de 2013

Jogos Vorazes, ou: A história de um filme e sua estranha campanha publicitária


De olho nas férias de verão dos Estados Unidos, o trailer do segundo filme da série Jogos Vorazes começou a circular pela internet e pelos cinemas americanos. Em Chamas só estreia no final do ano, mas, com as crianças e adolescentes em casa, agora é a hora de botar o pessoal do marketing para trabalhar. Igualmente oportunista, Elisa resolveu aproveitar a deixa e fazer alguns posts sobre a saga. Pretendo escrever sobre os três livros em outra semana, com spoilers e comentários que não cabem aqui. Hoje, quero falar um pouco sobre o filme, que eu gostei bastante e assisti outra vez esses dias, tanto por causa do blog quanto para refrescar a memória para novembro. E, sim, o post vai ser grande. Dito isto, vamos em frente “and may the odds be ever on your favor”.

A primeira vez em que ouvi falar de Jogos Vorazes foi, se não me engano, em 2011, através de uma colega do trabalho. Ela comprou o livro por acaso e estava me contando sobre como ele era legal. No meio da história, um pensamento começou a me incomodar: "Mas, gente, isso não é Battle Royale?". Tinha acabado de ver o filme baseado no livro de Koushun Takami, e não achei nenhuma grande coisa. Mas a ideia é interessante. Em Battle Royale, uma turma de escola é escolhida a esmo para lutar até a morte em uma ilha. No final, apenas um sobrevive. Passado em um futuro distópico, o filme faz uma crítica à sociedade japonesa e ao medo da juventude. A matança a que são submetidos os adolescentes de Battle Royale serve de processo de transição para a vida adulta: amedrontados, traumatizados e incapazes de confiar em outras pessoas, os jovens de Battle Royale estão prontos para integrar a sociedade. Pelo menos, foi esta a minha interpretação. 

Já em Jogos Vorazes, a capital da nação pós-apocalíptica de Panem exige que seus 12 miseráveis distritos sacrifiquem dois de seus jovens anualmente como punição por uma revolta que levou à completa obliteração de um décimo terceiro distrito. Os 24 "tributos" são levados para uma arena, onde lutarão por suas vidas em uma batalha à qual apenas um pode sobreviver. A competição é transmitida ao vivo para os quatro cantos de Panem e os adolescentes escolhidos são tratados como celebridades, com desfiles, entrevistas e perfis para a televisão. Como em qualquer reality show, o vencedor leva para casa um prêmio: a oportunidade de ter um lar decente e de poder alimentar sua família sem se preocupar com o dia de amanhã.
Os 24 tributos da 74ª edição dos Jogos Vorazes.
 As semelhanças entre a essência de Jogos Vorazes e Battle Royale são, realmente, inegáveis. Muito embora Suzane Collins tenha dito que não se inspirou no livro de Takami, é difícil de acreditar que a autora não tenha, pelo menos, entreouvido e guardado na memória algum comentário sobre a obra japonesa. Porém, a forma como a trama se desenvolve e os temas que ela pretende abordar garantem ao livro de Collins um passe livre para longe do processo judicial. Enquanto Battle Royale aborda o medo do porvir e a passagem para a idade adulta, Jogos Vorazes faz uma crítica ao capitalismo selvagem e à sociedade dominada pela mídia.
Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence)
 Para quem não sabe, a personagem principal do romance é Katniss Everdeen. Moradora do Distrito 12, que cuida da mineração de carvão, Katniss se oferece como tributo para salvar a pele da irmã mais nova. O outro escolhido é o aprendiz de padeiro Peeta Mellark, que serve de polo para o triângulo amoroso exigido pela editora para que a trilogia pudesse fazer frente ao fenômeno Crepúsculo. Se Peeta é o Edward da distopia de Suzane Collins, o lobisomem da vez é Gale Hawthorne, melhor amigo de Katniss, com quem a personagem se aventura em caçadas ilegais na floresta que cerca o distrito.
Gale (Liam Hemsworth) e Peeta (Josh Hutcherson)
A adaptação para o cinema correu da melhor maneira possível, em parte porque Jogos Vorazes é uma história feita para ser contada em imagem, dado o importante papel que as representações midiáticas ocupam na trama. O outro motivo é o cuidado na transposição para a tela grande para não deixar o filme longo demais, confuso demais ou verborrágico demais. Embora alguns detalhes essenciais - como o motivo pelo qual o nome de Gale entrou mais de 40 vezes no sorteio - tenham ficado perdidos na sala de montagem (ou na lixeira do roteirista, sei lá), o diretor Gary Ross optou por deixar de fora uma série de cenas desnecessárias, ou por substituí-las por algo mais simples e igualmente funcional. O filme também ganha pontos por ampliar o universo de Panem: enquanto o livro é todo narrado do ponto de vista de Katniss, a adaptação para os cinemas permite que conheçamos um pouco mais os personagens da Capital e os interesses por trás do sangrento reality show. Os dois maiores erros do filme em si são a forma como a comida, que tem um papel fundamental no futuro repleto de pessoas famintas em que a trama se situa, é relegada a segundo plano e a extrema limpeza dos personagens, que estão sempre de cabelinhos cuidadosamente penteados, seja na miséria do Distrito 12 ou na arena dos Jogos. A maquiagem hollywoodiana chega ao ponto de tirar da história a perna amputada de Peeta, enquanto tenta devolver o ar realista à trama com o uso exagerado de câmeras trêmulas.
Katniss e Rue, depois de dias na arena.
Já do lado de fora da tela, é possível encontrar duas faltas muito mais graves na pré-produção e no período de divulgação do filme. A primeira é o whitewashing pelo qual passou Katniss Everdeen: descrita no livro como tendo a pele morena, a personagem teve seu teste de elenco aberto apenas para atrizes caucasianas e acabou sendo interpretada por Jennifer Lawrence. O segundo problema se deve a um setor babaca do fandom de Jogos Vorazes que criticou a escalação da pequena Amandla Stenberg como Rue, a menina do Distrito 11 com quem Katniss forma uma aliança e que é descrita por Collins como tendo a pele e os olhos escuros. A escolha deu origem a uma série de tweets ofensivos (reunidos no tumblr Hunger Games Tweets) que iam desde gente reclamando que Amandla não correspondia à sua imagem da personagem até racistões de marca maior dizendo que a morte de Rue já não era mais tão triste por ela ser negra. O drama, aliás, está se repetindo com a escolha de Jeffrey Wright para o papel do gênio tecnológico Beetee, um antigo vencedor do Distrito 3. Porque, aparentemente, negros não podem ser inteligentes...

Apesar dos maiores problemas de Jogos Vorazes estarem do lado de fora das telas, é também o que foi feito no mundo real que garante ao filme seu maior trunfo sobre sua matéria-prima. E não foi proposital. Ao menos eu não acredito que tenha sido. Se foi, eu sinceramente não consigo dizer se os responsáveis por tudo aquilo são burros feito uma porta ou os maiores gênios do crime que a humanidade já conheceu. Bom, o negócio é o seguinte: pare cinco segundos para prestar atenção no cartaz de Jogos Vorazes e em alguns dos pôsteres promocionais que saíram para Em Chamas.

Alguma coisa estranha? Que tal as frases que anunciam a Turnê da Vitória e avisam que "o mundo estará assistindo"? E esta propaganda de uma marca de esmaltes que desenvolveu uma linha inspirada na franquia, batizada de Capitol Colours?
 
Francamente, nem precisava de mais nada, mas, só pra animar, jogue na mistura o fato de Jogos Vorazes ser quase todo filmado como se fosse um programa de televisão, com direito aos apresentadores Ceasar Flickerman e Claudius Templesmith quebrando a quarta parede para explicar algumas coisas para os espectadores e um videozinho sobre a história dos Jogos Vorazes que nós podemos assistir juntinho com a população de Panem. E eis que a crítica de Suzane Collins a uma sociedade em que uma minoria vive na riqueza enquanto a maioria morre de fome e é explorada por uma mídia manipuladora e quase onipotente torna-se mais óbvia do que nunca. É, nós somos a Capital. Nós, as classes média e alta do mundo inteiro, que concentramos 80% de todas as riquezas enquanto os 92% que compõe o outro lado da moeda agonizam com o pouco que lhes resta. Nós, que assistimos ao Big Brother, um programa que já sofreu investigações por suspeita de estupro e tortura, mas que também assistimos ao programa do Datena e suas variantes, que acompanhamos como a um show o sequestro do ônibus 174, em 2000, e o cativeiro da jovem Eloá, morta pelo ex-namorado em 2008. Nós, que exigimos a redução da maioridade penal para que os moradores das favelas e periferias sejam obrigados a oferecer seus filhos, privados dos confortos que só o dinheiro compra, como tributos para o julgamento popular e o espetáculo em que o noticiário transformará a próxima chacina ou rebelião de presidiários. Nós, que assistimos uma crítica ao nosso mundo e depois compramos esmaltes para representar distritos aos quais não pertencemos, no melhor estilo glamourização da miséria. É a máquina de contradições do capitalismo funcionando a todo vapor.
Escracha!
Vou chegar ao ponto de dizer que Suzane Collins escreveu um manifesto anti-capitalista infanto-juvenil? Não. O posicionamento de Jogos Vorazes é bem mais complicado e vai ficar para o próximo post. Porém, depois do retrocesso, tanto em termos políticos quanto narrativos, que foi o sucesso de vendas Crepúsculo, espero realmente que a trilogia de Collins ganhe cada vez mais os corações e mentes de seu público-alvo. Mesmo com sua divulgação esquizofrênica. Ou por causa dela. Ainda não sei dizer.