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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Relógio

Ela quebrou o relógio para fazer o tempo parar.
Com cada golpe da barra de ferro, ela se esforçava para prender no lugar o mundo que se expandia claustrofóbico e a esmagava entre suas paredes espaçosas e distantes. A cada pancada, ela trocava a solidão daquele universo lotado e barulhento pela leveza do vazio. A cada mola, caco, a cada pecinha da engrenagem que voava pelo ar e se espatifava contra a parede, o futuro ia se apagando, dando lugar ao agora, tão real e confortador.
Era um belo relógio, até. Uma relíquia de família que transcendia o sangue e os clãs. Mas ele não lhe servia. Não era capaz de segurar seus ponteiros para salvá-la do juízo que a aguardava, bem como a todos os seus pares. Então, ela o fez em mil pedaços. Esperava, assim, dar um fim ao inevitável abismo em que a forçavam a mergulhar de cabeça, sem qualquer aviso de quando seu suplício terminaria. Com o relógio quebrado, o tempo não poderia passar.
Coitadinha... Mal sabia ela que, com o relógio quebrado, o tempo não teria ninguém para impedi-lo de correr.

sábado, 31 de agosto de 2013

Perdão

Eu sempre achei que poderia perdoá-los.
A porta bateu com força, me deixando para trás, no escuro. Eu tremia, chorava, gritava, implorava, berrava e, enfim, me calava, em pânico. Ainda assim, achei que poderia perdoá-los.
Mãos que eu não sabia de onde surgiam puxavam-me, agarravam-me, apalpavam-me, empurravam-me, arrancavam-me as roupas, a calma e a segurança no ritmo das gargalhadas sem dono que me ensurdeciam – estridentes, invasivas, nojentas, enervantes, agressivas. E eu achei que poderia perdoá-los.
Era uma brincadeira, me disseram. Foi engraçado. Se você não fosse tão fácil de assustar, se não tivesse tantas esquisitices, se fosse mais que nem a gente, se levasse as coisas na esportiva... Eu concordei e achei que poderia perdoá-los.
Brincadeira de criança, eles repetiram, anos depois. Todos éramos idiotas. Éramos imaturos, inconsequentes. Mas você tem que admitir que foi engraçado. Lembra quando você começou a chorar? Lembra? Você saiu correndo e nós bloqueamos o seu caminho e te jogamos de um lado para o outro e você começou a gritar e nós cuspimos na sua cara e você se encolheu no canto e nós nos esfregamos em você e te obrigamos a beber do nosso mijo e limpamos o chão com seus cabelos. Lembra? Lembra? Lembra? É claro que era uma piada imbecil, mas – ai, ai... – os bons e velhos tempos da infância, quando podemos ser bobos assim sem medo de nada nem ninguém... Eu sorri, assenti e achei que poderia perdoá-los.
Nos dias e noites de cansaço e ausência, o corpo coberto da cabeça aos pés, engolindo, por vergonha, um grito de angústia, de desespero; nas viagens de ônibus em que todos os meus pequenos problemas transfiguravam-se em aberrações dantescas e inundavam meus olhos, meu rosto, minhas mãos; nos abraços e carinhos em que eu nunca pude sentir nada além da violência de um toque estranho; em cada nojo, em cada aversão, em cada ódio, em cada tensão, em cada medo, em toda e cada vez que eu tranquei a porta com o mais forte dos cadeados para resguardar o mundo do incômodo da minha presença e me proteger das vaias e dos tomates e das risadas e dos xingamentos. Em todos esses momentos, eu achei que poderia perdoá-los.
Mesmo quando tornei a vê-los, já adultos, com filhos, empregos e responsabilidades, achei que poderia perdoá-los.
Eles me chamaram para um jantar. Queriam relembrar o passado. Queriam dividir causos, piadinhas, travessuras, pequenos relatos de um tempo mais inocente. Buscando uma nostalgia da qual eu ainda supunha compartilhar, eu aceitei o convite. A cada nova historinha sobre mim, eu sorria, assentia e achava que poderia perdoá-los.
Foi só quando o risinho crescente e intervalado ecoou pela sala e minhas mãos meladas de sangue deixaram cair sobre o carpete acinzentado o último dos corpos deformados e repulsivos – criados à minha imagem e semelhança – que eu finalmente entendi: eu jamais poderia perdoá-los.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Do que aconteceu naquela tarde de sexta-feira

Nós colocamos nossas mãos sobre o copo de vidro que nos serviria de ponte. Ao seu redor, as letras do alfabeto estavam dispostas em um semicírculo, complementado pelos números de 0 a 9 e dois pedacinhos de papel que diziam “Sim” e “Não”.
Também podia ser feito com um compasso, disse a menina do oitavo ano que nos explicou as regras do jogo na sala de estudos da biblioteca. Mas o copo é mais seguro. O compasso é muito leve e descontrolado. Acabaria girando para qualquer lado e as respostas poderiam não fazer sentido.
Nós conhecíamos com moedas, explicamos. Duas caras querem dizer sim, duas coroas, não e uma cara e uma coroa, talvez.
- O copo dá mais detalhes – ela respondeu.
Nossas casas eram próximas umas das outras. Clarissa morava no meu prédio e Giovanna, em uma ruazinha sem saída um pouco depois. Íamos para a escola juntas. E foi na mesa de pingue-pongue do playground do edifício que nos reunimos para nosso primeiro contato sério com entidades espirituais.
O ritual começava com uma simples pergunta, repetida duas, três, quatro vezes: “Tem alguém aí?”. Nossos olhos se arregalaram quando o copo finalmente deslizou pelo tampo da mesa em direção ao pedacinho de papel que respondia afirmativamente.
- É claro – disse Giovanna. - O que mais ele poderia dizer? - Nós a silenciamos.
Aos poucos, coletamos informações sobre nosso interlocutor. Era homem. Morrera com 23 anos, de tuberculose. Era certamente bonito, naquele estilo do século XIX que aparecia nos seriados de televisão. Ele não nos disse isso, óbvio, mas era como eu achava que deveria ser. Não conseguia ir embora para o outro mundo porque seu ódio o prendia ao plano terreno: pretendia arrastar consigo o maior número de almas que conseguisse, como forma de expressar sua revolta por ter perecido tão cedo. Quanto mais jovens, melhor.
- Eu não estou gostando disso... - Giovanna voltou a interromper. E, mais uma vez, nós a silenciamos.
Giovanna era a mais medrosa de todas nós. Gritava sozinha quando víamos filmes de terror, mesmo no cinema, onde todos riam e viravam para encará-la tamanho o seu desespero. Após uma sessão de DVD ou de histórias de terror, muitas vezes dormia na minha casa ou na de Clarissa para não ter que andar os dois quarteirões que separava seu prédio do nosso, mesmo que ainda fosse cedo. Logo, foi a que mais sofreu quando o copo começou a formar frases ameaçadoras, que diziam que jamais voltaríamos a ver nossas famílias, que não poderíamos ir embora. Com o rosto encharcado pelas lágrimas, Giovanna se jogou contra a parede, arrancando a mão de cima do copo, trêmula. Clarissa correu para acalmá-la. Um pouco depois, eu também tentei ajudar.
Na noite daquela sexta-feira, dormi com um sorriso nos lábios – o resto da gargalhada com que abri a porta de casa. Como elas eram impressionáveis.
Só fui acordar na hora do almoço, no dia seguinte. Os lençóis estavam tão quentinhos, o colchão, tão macio. Poderia nunca mais ter saído dali. Seria capaz de descansar para sempre com os olhos entreabertos, enrolando-me como um gato nas cobertas. E eu estava com sono. Tinha dormido tanto, mas era como se nunca tivesse encostado a cabeça no travesseiro.
Mas minha preguiça de fim de semana não teve tempo para se dissipar naturalmente. Com um sacolejo fraco, porém nervoso, meu pai me arrancou do meu calmo despertar. Fazia perguntas rápidas e aparentemente desconexas sobre Clarissa. Se eu sabia onde ela estava; o que tínhamos feito ontem; se ela costumava andar com alguém estranho, talvez alguém mais velho; se tinha falado alguma coisa sobre fugir de casa. Mais tarde, enquanto repetia para a polícia as mesmas respostas que dera a meu pai, finalmente caiu a ficha de que Clarissa havia desaparecido sem deixar rastros. E talvez nunca mais voltasse.
Um pensamento correu pela minha espinha, deixando para trás um rastro dolorido e gelado. Sentada no sofá da sala, não conseguia fazer nada além de olhar fixamente para a televisão, incapaz de absorver as imagens que dela emanavam. Não me lembro de ter levantado uma vez sequer, nem ao menos para is ao banheiro. Acho que não comi, também. Eu apenas encarava o que estava à minha frente: a tela, os móveis, o nada, o vazio borrado dos meus olhos, o fantasma da nossa brincadeira. Não tinha mais tato: era incapaz de sentir as almofadas, o chão, as mãos que seguidamente tocavam meu ombro em busca de algum sinal de vida.
Meu transe chegou ao fim por volta das oito da noite, quando o barulho estridente do telefone tornou impossível para mim ignorar o mundo ao meu redor. Talvez eu já soubesse quem estava do outro lado da linha. Talvez fosse isso o que eu estava esperando. Com passadas automáticas como as de um robô, eu caminhei até a cômoda e tirei o fone do gancho. Despreocupada, com a voz abafada pelos personagens da novela, a mãe de Giovanna me pedia para avisar sua filha que já era hora de ir para casa. Ela também não tinha voltado. Acostumados que estavam com as noites que ela passava em minha casa, sua mãe e seus irmãos não deram por sua ausência.
Quando eu desliguei o telefone, meus pais me envolveram em um sufocante abraço, acariciando-me, beijando-me e agradecendo a Deus por eu estar segura em casa. Eles tremiam e fungavam, contendo o choro que não tinham o direito de compartilhar. Eu me desvencilhei de seus braços e, sem uma palavra, enfurnei-me no quarto, batendo a porta atrás de mim. No escuro, sentada em um cantinho empoeirado, ainda catatônica, eu apertei as pernas contra o peito e deixei a primeira lágrima escorrer pelo meu rosto. Então a segunda, a terceira, a quarta...
Eu tinha empurrado o copo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ferida


No primeiro dia, ela cutucou a ferida com as unhas sujas da poeira do chão do quarto. Era pequena, apenas um pontinho vermelho de sangue e carne bem na curvinha do joelho. Ela não sabia de onde ela tinha vindo. Talvez fosse resultado de um tombo de leve na aula de educação física, ou a marca deixada por algum caquinho de vidro esquecido pela casa. Era tão pequenina... Mas, ainda assim, doía. Como um corte de papel que esconde seu incômodo sob uma aparência quase imperceptível, a ferida ardia e latejava a cada toque. Era melhor deixar para lá, então. Não encostar. No dia seguinte, ela provavelmente já estaria coberta por uma casquinha, que seria cuidadosamente arrancada para dar lugar a uma rosada cicatriz.
No segundo dia, ela foi lembrada da marca em sua perna enquanto estava no banho. A água fresca parecia atear fogo naquele pedaço da sua pele. Com o rosto retorcido pela surpresa e um gemido abafado, ela viu que a antes diminuta ferida agora se transformara em um machucado de verdade, daqueles deixados por um tombo no chão de cimento puro, sem qualquer tipo de cobertura. Recostada na parede, ela levantou e dobrou o joelho para dar uma olhada mais cuidadosa na ferida. O esticar da pele tornou ainda mais intensa a dor causada pela estranha mácula que parecia estar cicatrizando ao contrário.
No terceiro dia, ela mostrou a ferida para a mãe, em busca de respostas para as perguntas que não queriam calar. Por que ela não fechava? Por que ficava aumentando sem parar? De onde ela poderia ter vindo? Pois devia ser um machucadinho de nada que ganhou outras proporções de tanto ela futucar. Era só pegar um vidrinho de mertiolate no armário do banheiro, passar um pouco no joelho e deixar a ferida quietinha que ela com certeza ia passar. Foi esta a resposta que ela ouviu. Despreocupada. Insuficiente. Decepcionante. Mas não havia mais nada a fazer. Com a pazinha áspera, ela espalhou o remédio sobre a chaga e esperou que ela diminuísse. Leu, dormiu, viu televisão. Tomou cuidado para que nada encostasse no machucado, nem mesmo seu olhar. Tentou esquecer que ele estava lá. À noite, procurou as melhoras prometidas por sua mãe e pela companhia farmacêutica. A ferida continuava no mesmo lugar e não tinha diminuído nem um tiquinho. Na verdade, a impressão que dava era de que ela só havia feito crescer, assim como nos dias anteriores. Mas talvez fosse só isso, mesmo: impressão...
No quarto dia, ela foi acordada por gritos nervosos que ordenavam que ela levantasse da cama. Uma caneca de achocolatado deixada sobre o chão da sala – não tinha nada que ser deixada ali! – estava cheia de formigas. Com os olhos arregalados de susto, ela pulou para o chão e correu para ouvir as broncas e levar sua louça suja para a cozinha. Não deu atenção para a ferida, que continuava lá, e agora se espalhava por toda a parte inferior do seu joelho. Não deu atenção para o fato de que mancava, tamanho o incômodo causado pelo machucado. Não deu atenção para a dor, que corria por suas terminações nervosas, mas parecia incapaz de chegar ao cérebro. A única coisa que importava era a caneca suja de achocolatado largada no chão da sala, bem em frente ao sofá. Francamente, já era hora dela tomar tenência nessa vida e começar a crescer.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Manga com leite



- E o que a gente vai fazer com o corpo?
Um raio irrompeu na televisão, reduzindo a pó o pato do desenho animado, enquanto Tamara esperava a resposta de sua irmã.
- A gente enterra no quintal, bem no túmulo do Pluto. Daí, ninguém vai saber.
Luísa era a mais velha e mais esperta, portanto, foi a responsável por ligar o liquidificador e manusear a combinação mortífera de manga com leite. Com a mamadeira cheia, as duas caminharam nas pontas dos pés até o berço de Isadora, a caçula, que recentemente passara do quarto dos pais para o quarto das meninas. Não precisavam de mais uma irmã e, principalmente, não precisavam de mais ninguém para ocupar seu espaço, que já não era muito grande, para começo de conversa.
A bebê aceitou com voracidade a bebida oferecida pelas irmãs. Agora, era só uma questão de tempo. Quando o veneno finalmente fizesse efeito, elas diriam para os pais que a pequena havia fugido ou sido levada por alguém - alguém que não fosse um bandido, claro. Diriam também que estava tudo bem, que eles quatro já bastavam para uma família feliz. E ninguém pensaria em revirar o túmulo do velho vira-lata para descobrir a verdade. Penduradas no berço, as duas sorriram. Era um plano à prova de falhas.
Foi apenas à noite, quando os programas infantis já haviam dado lugar à novela, que Tamara e Luísa perceberam que a sabedoria popular nem sempre tem razão. Quando os créditos finais começaram a rolar, as duas foram para a cama, decepcionadas e ainda alheias à culpa e amargura que permeariam suas vidas a partir daquela sexta-feira de julho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O irmão mais novo



A floresta de pernas cercava o lustroso berço de titânio. Raízes de cores brilhantes, repletas de amortecedores, que culminavam em caules azulados. Troncos beges e amarronzados cobertos por uma folhagem de diversas camadas. Plantas dos mais diversos tipos, dispostas em torno da clareira que abrigava o bebê. Em meio à selva, um aventureiro abria caminho para observar aquele ser completamente novo para o mundo.
Miguel olhou para o irmão por entre as barras do berço. Não era o mesmo cercado de madeira em que ele dormira, e seu primo antes dele. Era novo. Caro. Resistente. Belo. Tal qual seu ocupante. Talvez até tivessem sido feitos pela mesma companhia.
Miguel se lembrava do dia em que seu pai o levou para ver o irmãozinho no laboratório. Eles tiraram fotos e Miguel pensou que seus pais haviam feito um péssimo negócio. Já vira fotos do tempo em que era bebê e elas não mostravam um etezinho afogado em uma bolha de líquidos, preso a uma máquina por uma corda que lembrava os estranhos vermes do livro de ciências do seu primo. Mas seu pai explicou que o novo bebê era diferente. Havia sido criado a partir do melhor caldo genético e era alimentado apenas por nutrientes escolhidos a dedo. Teria um nascimento perfeitamente controlado, no dia, na hora, no minuto e no segundo certos. E sua mãe não sentiria qualquer tipo de dor.
Todos os parentes, amigos e vizinhos despencaram-se imediatamente após o parto para ver aquele pequeno milagre da ciência. Era o fim da dor, da doença, das imperfeições. O sonho da raça humana na forma de bebês rechonchudos, simétricos, cabeludos e risonhos, como os das fotografias tratadas das capas de revista.
Miguel afastou-se do irmão, que dormia, alheio ao que sua saúde e beleza simbolizavam para os meros mortais ao seu redor. Ou talvez ele soubesse, e justamente por isso dormisse com tanta leveza. Em frente ao espelho, Miguel tirou os óculos e examinou sua figura desfocada. Seu irmão não teria problemas de visão como ele. Também não teria asma como ele. Também não teria aqueles ossos proeminentes e anêmicos. E nem o nariz que ele herdara da avó, grande demais para o resto do rosto.
Seu irmão era forte. Belo. Perfeito. Medonho.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cor de Tempo

Ele abriu a velha caixa de fotografias que ficava guardada embaixo da cama. Como suas pernas, o papelão estava manchado pelo tempo e, como seus cabelos, deixava rastros sobre o lençol. As fotos eram como uma estrada capaz de percorrer o tempo ao invés do espaço. Retiradas uma a uma ou em pequenas pilhas, elas iam perdendo a cor, a definição, e até mesmo pedaços. Mais ou menos no meio do caminho, ele encontrou o que queria.
Os retratos estavam ainda inteiros, perfeitamente visíveis, embora tivessem adquirido a tonalidade típica dos momentos que ficam para trás. Bem em cima, um rapazote de vinte e poucos anos posava diante de um imponente edifício, coberto pela coloração amarela do passado. Um reflexo dos dentes, das unhas e das marcas de injeção da figura enrugada sobre a cama, que parecia tão ousada e composta na antiga fotografia, com seu uniforme do tiro de guerra.
Os dedos constantemente trêmulos acariciaram o rosto do rapaz, que era e não era mais – era passado e presente ao mesmo tempo. Com passinhos curtos, ele levou o retrato até uma outra figura enrugada, sentada em uma cadeira de balanço, coberta por um xale florido.
- Aqui: uma foto do seu noivo.
- É velha.
- Não é, não. É nova. É do seu noivo.
- Está amarela.
- É efeito. Desses que a garotada gosta.
A mão magra e coberta por ondinhas saiu de baixo do xale e tomou com cuidado a fotografia das mãos daquele homem desconhecido. Um sorriso se acendeu no rosto daquela mulher, que ele conhecia tão bem. E os dois fitaram com afeto as feições sorridentes de seus amados, cada um preso em sua própria época.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Obituário



Era uma daquelas manhãs em que a cidade mais parecia os arredores de algum estábulo. A lama gerada pela chuva, os restos do esgoto que sempre terminava por transbordar e o lixo acumulado nas poças deixavam as ruas com um cheiro insuportável. Entre suspiros e exclamações, Dona Marlúcia desviava com dificuldade dos buracos repletos de água e micro-organismos espalhados pela calçada. Seus tempos eram outros, em que as crianças eram mais educadas, o mundo não era tão mau e o ar era mais limpo, assim como as travessas e alamedas que ainda não tinham se transformado em largas avenidas de concreto. Nas suas mãos enrugadas, duas sacolas suportavam o peso – a cada ano mais leve – dos jornais do dia, comprados bem cedinho para não faltar nenhum.
Já fazia mais de década que Dona Marlúcia conservava o hábito de checar os obituários e memorizar o nome de todos que estavam para ser velados e enterrados. Não se preocupava com as notícias de terremotos e assassinatos, com o adeus de presidentes, artistas e líderes religiosos - mortes grandiosas nas quais todos prestariam atenção. Queria os desconhecidos, os que não receberiam sequer uma nota não fosse pelo pagamento da família e de amigos – verdadeiros indigentes na sociedade da mídia. À noite, antes de dormir, rezava um terço dedicado às pessoas que deixavam, pela última vez, uma marca de sua existência no mundo: Otávio, Carolina, Noêmia, Jurandir... Para que suas alminhas entrassem sem problemas no céu, dizia.
Dona Marlúcia não ia mais à igreja. Na parede do corredor, conservava ainda o calendário do Sagrado Coração e uma pintura de Nossa Senhora com o Menino Jesus em seus braços. Porém, Deus e seus inúmeros profetas já não eram mais parte do seu dia a dia, apenas uma forma de lidar com os momentos difíceis da vida. Esta religiosidade ocasional era o motivo pelo qual seu marido – “que Deus o tenha” - dizia que seu hábito de rezar o terço para os mortos estava mais para uma superstição do que para um sinal de fé. Dona Marlúcia não lhe dava ouvidos. Mesmo agora, já viúva, sacudia a mão no ar para desmerecer suas palavras.
Na noite daquele dia malcheiroso, Dona Marlúcia repetiu o gesto duas vezes no caminho para a cama. Pegou o terço de cima da mesa de cabeceira e desabou no chão no exato minuto em que o primeiro relâmpago iluminou o quarto. O peito doía, a cabeça girava, o ar não entrava. Do que chamam isto hoje em dia?, pensou. Infarto? Falência múltipla dos órgãos? No tempo da bondade, das crianças educadas e das ruas com cheiro de flores, teria sido apenas um troço.
Apenas quando o trovão ribombou pelo céu é que Dona Marlúcia percebeu que provavelmente não viveria para descobrir o nome do mal que lhe acometera. E foi então que um pensamento aterrador invadiu sua cabeça: em todos os anos que passara rezando pelos desconhecidos, nunca dedicara uma ave-maria que fosse à sua própria alma. E se ninguém fizesse isto por ela? Seus filhos não eram religiosos e seu grupo de amigas já fora reduzido a menos da metade. Não conseguiria rezar por si própria. Não agora. Haveria outros que dedicavam suas preces aos nomes nos obituários? Se sim, será que sua família pagaria por uma notinha em pelo menos um daqueles jornais?
Uma luz esbranquiçada adentrou o quarto, fazendo com que Dona Marlúcia esboçasse um choro desesperado. O estrondo que se seguiu a fez parar: era apenas a chuva que anunciava sua chegada. O medo, porém, permanecia e Dona Marlúcia se pegou desejando que nada daquilo que ouvira nas aulas de catequese fosse verdade. Foi então que pensou em seu marido, que talvez ele tivesse razão quando dizia que ela já não agia por fé. Era apenas uma superstição. Uma forma de afastar sua própria mortalidade. Ou, talvez, de aproximá-la. Afinal, aqueles não eram mais os seus tempos. Dona Marlúcia pensou na vida que se esvaía de sua carne e nos sinais divinos que já tardavam em aparecer: as luzes, os anjos, a paz de Cristo... A cada esforço que fazia para respirar, seu medo lhe parecia mais e mais distante. Quando soltou seu último suspiro, Dona Marlúcia viu apenas o escuro e compreendeu que, de agora em diante, seria apenas uma ausência. Seus lábios moveram-se pela última vez: um agradecimento sussurrado para alguém que ela já sabia que não estava ouvindo.

terça-feira, 26 de março de 2013

Sentido

         Primeiro eles lhes tiravam a visão. E não parecia tão ruim. Muitas pessoas são capazes de viver sem enxergar. Depois, a audição lhes era arrancada. E, ainda assim, não parecia tão ruim. O olfato era o próximo da lista, seguido pelo paladar, e então já se tornava uma árdua tarefa fazer sentido do mundo ao redor. Por último, eles destruíam o tato. Mas não completamente. Tinham ao seu lado médicos e cientistas altamente treinados, que deixavam para trás o suficiente para que fosse possível cambalear ou pelo menos se arrastar pelo chão. Porém, o menor toque, a mais gentil carícia ou até mesmo a maior das dores já não alcançavam mais o cérebro dos prisioneiros. 
          Sentir era proibido por lei. Não o sentir das mãos e dos pés, mas aquele que se origina em nossas cabeças, muito embora alguns insistam em dizer que vem do coração ou da alma. Amor, ódio, alegria, tristeza, medo, coragem, a calma de um abraço ou um simples frio na barriga. Tudo era passível de punição. Era aceitável, é claro, que sentíssemos uma pontada desses sentimentos, de vez em quando. Afinal, não havíamos deixado de ser humanos. Entretanto, era preciso suprimir o desejo, a vontade, a dor e a solidão em nome de um bem maior. O importante era funcionar, sem qualquer interferência de algo que pudesse colocar uma trava no moto contínuo de ações pragmáticas que mantinha nos eixos o mundo que eles haviam planejado. Quem não funcionava, quem não se controlava, era castigado com a remoção de todos os canais que possibilitam a transmissão de sensações e a criação de sentimentos em suas mentes. Presos, sós, dentro da completa ausência, deveriam expiar seus pecados e contemplar a beleza pura e geradora do vazio.
          Eu era o seu vigia. Do alto de uma torre pintada de branco, eu observava os condenados que habitavam a prisão a céu aberto coberta de terra e sujeira. Homens e mulheres, jovens e velhos, completamente nus, eles vagavam de um lado para o outro em graus variados de falta de percepção. Os novatos gritavam, na esperança vã de que alguém lhes daria ouvidos, de que alguém os tiraria dali. Com o tempo, suas vozes eram silenciadas e restava-lhes apenas um urro selvagem e sem vida. Um eco do que um dia haviam sido. Os mais antigos tropeçavam uns nos outros, ou em suas próprias pernas, alheios à urina e às fezes que lhes escorriam pelo corpo. Alguns engatinhavam, ou simplesmente rastejavam, e não eram poucos os que se deixavam tombar à espera da morte por fadiga, doença ou por uma fome que já não percebiam. Um velho que precedia a minha contratação era o mais longevo de todos os prisioneiros. Passava a maior parte do dia sentado em um canto e saía apenas para comer. O almoço e a janta eram jogados por um cano ao meio-dia e às seis da tarde, mas, como muitos, ele já não tinha mais noção de tempo. Às vezes conseguia encontrar um pedaço de frango ou uma maçã estragada, mas não era raro se contentar com poças de vômito, excrementos e partes de outros detentos cujos corpos eram esquecidos em meio ao caos. Esta rotina era o que lhe permitia sobreviver. Não entendia por que ele a criara. Hoje, entendo menos ainda. Sem qualquer contato com o mundo exterior, ele pelo menos era imune ao patético teatro de violência protagonizado pelos que ainda não tinham passado por todas as etapas do processo de dessensibilização. Como bestas, atacavam os mais fragilizados, que muitas vezes sequer se davam conta da agressão. Deixavam para trás um rastro de adolescentes que não conseguiam se levantar; de mulheres que definhavam, incapazes de sentir os fetos que apodreciam em seus corpos; de crianças que nasciam mortas e eram rapidamente consumidas pelos mais velhos. Já não eram humanos, já não eram animais – eram feras mitológicas, monstros criados em laboratório. E eu era o seu vigia. E, um dia, sucumbi ao nojo e ao horror, às vistas dos meus companheiros.
Trancafiado no silêncio, ninguém nunca ouvirá minha história.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Dois movimentos

Primeiro
O refrigerante gelado escorrendo pela garganta em um dia de verão. O calorzinho de uma caneca de chocolate quente quando o casaco já não basta. As unhas arranhando seu couro cabeludo enquanto as tranças começam a se formar lentamente nas mãos de suas irmãs. O som do vento nas copas das árvores quando o sono demora a vir. Todos os seus pequenos prazeres palideciam diante daquele beijo.
O frio corria em disparada de sua barriga para suas costas, fazendo a volta na curvinha do seu pescoço para retornar ao ponto de origem. O sabor ardido e gelado da bala de menta ia e voltava, até finalmente escorrer-lhe pela garganta. Os pelos se eriçavam como se o mundo tivesse entrado em um inesperado inverno.
Sobre a pele arrepiada, o calor que emanava dos corpos caía como uma coberta macia e úmida. Não como uma jaqueta encharcada pela chuva, mas como uma bolsa de água quente no colo para amenizar os tremores.
Mãos, dedos e unhas deslizavam por suas costas, sua cintura, seus seios, seus cabelos. Ela repetia os movimentos, sentindo a si própria através do corpo antes estranho que se unia ao seu. A trança única perdia sua forma e começava a se desfazer.
A respiração irregular soprava sobre os pelinhos do rosto, em silêncio e, ao mesmo tempo, com um barulho maior do que o de qualquer ventania em qualquer floresta.
O sorriso pleno de felicidade, prazer, timidez e desejo – um reflexo do seu – colocou em suspensão tudo que antes compunha a lista de suas coisas preferidas.

Último
“Eu te amo”, ela disse, e um sorriso doído e choroso brotou ao seu lado, substituindo as flores que ficaram para trás na transferência para o CTI.
Com uma carícia nos cabelos brancos e ralos, a boca enrugada desceu sobre a sua e o sorriso se desfez em um beijo trêmulo, calmo e vagaroso.
O refrigerante que ela já não podia tomar desceu fazendo cócegas em sua garganta. O antigo chocolate, que agora já não tinha o mesmo sabor, atravessou sua língua e encheu cada espaço entre os seus dentes. Suas irmãs, distantes e próximas, voltaram a trançar seu cabelo, que tornou a ser cheio como na juventude. O vento cortou o dia quente e seco e assoviou sua canção fantasmagórica nas árvores que cercavam o hospital.
Os lábios se descolaram dos seus, deixando para trás, como um presente de despedida, tudo que voltara a compor a lista de suas coisas preferidas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O antigo morador

Somente quando ela deu entrada no apartamento, o corretor de imóveis lhe contou sobre o estranho caso do antigo morador. Júlia ficou levemente incomodada. Não era dada a superstições, mas não conseguiu deixar de pensar que poderia ter procurado outro lugar se fosse um pouco mais sensível e o corretor, mais honesto. Tinha certeza de que ele só lhe dissera a verdade por ela não ter mais como voltar atrás.
Mas ela teria percebido de qualquer forma. O apartamento tinha dois quartos minúsculos, um dos quais era quase todo ocupado por um gigantesco armário de madeira. Vai dar um bom depósito, pensou. Talvez um lugar para guardar roupas e livros que, de outra forma, tomariam grande parte dos cômodos. O único problema era o cheiro de mofo. A cada porta que Júlia abria, o odor adocicado se tornava mais intenso, fazendo arder seus olhos e suas narinas. Mas ia passar. Bastava um pouco de ar e ia passar.
Foi na última divisória do guarda-roupa que Júlia encontrou as evidências da loucura que acometera o antigo morador. Encostados no canto, quadros, pôsteres e fotografias dividiam espaço com as teias de aranha e o fedor insuportável que só fazia aumentar. Crianças e senhoras que sorriam, abraçadas; o time do Botafogo no campeonato brasileiro de 1962, amassado e rasgado nos cantos; Dirty Harry, empunhando sua pistola; um homem e uma mulher na praia, talvez o dono de todos aqueles retratos e alguma irmã ou namorada... Todos tinham os olhos riscados, à caneta ou na ponta da faca.
Júlia sentiu um frio na espinha. Juntou as imagens em uma pilha e enfiou-as de qualquer jeito dentro de uma sacola plástica, que jogou no buraco da lixeira do condomínio. Não queria olhar para elas. Não queria pensar no que poderia ter acontecido no dia em que todas aquelas figuras se tornaram tão assustadoras, no que se passara na cabeça do antigo morador para que ele não apenas se incomodasse com suas presenças, mas com seus olhares. Encostada na parede gelada da cozinha, Júlia respirou fundo. A secura na garganta só passou depois do terceiro copo de água. Ela olhou ao redor, ainda com a respiração irregular, e correu para abrir todos armários da casa. Por causa do mofo. Por causa do mofo.

Em pouco menos de um mês, Júlia já não sentia mais cheiro algum em seu novo apartamento. Até mesmo o eucalipto dos produtos de limpeza já tinha se dissipado, junto com o verniz que antes impregnara os armários de madeira. Os pequenos cômodos vazios foram aos poucos mobiliados. Um sofá, uma cama, uma mesa, cadeiras, uma geladeira, um fogão, uma televisão, enfeites... Na prateleira em cima da cama, Júlia colocou os porta-retratos que exibiam os momentos e as pessoas mais importantes de sua vida; no corredor, as paredes foram cobertas por pôsteres tirados de uma coleção do jornal que imitavam trabalhos de pintores famosos: Gauguin, Renoir, Van Gogh. Sobre o sofá, as Marilyns de Andy Warhol sorriam para os visitantes.
Foi também em pouco menos de um mês que Júlia começou a sentir uma certa estranheza em algumas partes da casa. Primeiro, foi no quarto. As fotografias em cima da cama passaram a incomodá-la de tal maneira que Júlia já não conseguia dormir. Às vezes, fechava os olhos por um breve instante apenas para acordar sobressaltada com alguma coisa que ela não sabia explicar. Seus olhos sempre se voltavam para os porta-retratos.
As manchas roxas ao redor dos olhos de Júlia já chamavam a atenção de seus vizinhos e colegas de trabalho quando ela resolveu levar as fotografias para a sala. Na prateleira, colocou alguns livros que pretendia ler em breve. As noites tornaram-se mais tranquilas, mas o problema fora apenas mudado de lugar. Sempre que ela chegava em casa ou se sentava no sofá para ler ou ver televisão, Marilyn e suas irmãs pareciam rir com um certo deboche de suas roupas, de seu cabelo. Olhavam-na com desprezo. Com um misto de vergonha e raiva, Júlia as fitava nervosamente, sentindo, por cima dos ombros, o riso penetrante das fotografias.
Júlia passava cada vez mais tempo em seu quarto e começara a entrar em casa pela porta da cozinha quando os quadros no corredor começaram a murmurar e segui-la com os olhares. No começo, era só uma impressão, um calafrio que desaparecia assim que ela virava para trás. O pânico cresceu gradativamente no peito de Júlia, ao ponto de ela não mais conseguir ir até a cozinha com a cabeça erguida e as mãos firmes. Evitava ter que passar por ali. Quase não comia e levava jarras de água para o quarto. Apenas quando a sede apertava, voltava para enchê-las. Respirava fundo antes de atravessar o corredor e corria, cada dia mais rápido, até perder o equilíbrio e desabar. De quatro, com as mãos sobre a água e os cacos de vidro, Júlia sentiu o peso dos olhares em suas costas. Ajeitando-se para sentar no chão, ela os encarou. Eles a julgavam, riam, humilhavam-na. Com as mãos sujas de sangue, Júlia cobriu os ouvidos, mas não conseguia abafar a gargalhada que explodia na parede. Júlia gritava, berrava. O rosto quente era aos poucos coberto pelas lágrimas.

A poeira grossa voou de cima da estante e dançou no ar, iluminada pelo sol que entrava pela janela. Não é nada grave, pensou o corretor de imóveis. Ninguém liga para a poeira. Um casal estava para chegar, para dar uma olhada no apartamento, e ele estava dando os retoques finais. No geral, o lugar estava em bom estado. A única coisa que o incomodava eram os quadros e as fotografias: jovens taitianas com os seios a mostra e senhores de chapéu; Marilyn Monroe, sorridente, em diversas cores; homens, mulheres e crianças, pendurados uns nos outros; duas moças na praia. Uma delas era aquela menina e a outra... Talvez uma amiga, uma irmã, ou namorada. Todos tinham os olhos riscados. Por que as famílias nunca os levavam embora? Com o suor escorrendo pelas costas, ele juntou as imagens e largou-as em um canto do guarda-roupa. Era melhor não brincar com essas coisas.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cibele

Cibele arrumou o vestido de algodão em frente ao espelho do corredor. Ele era vermelho e rodado, como bem mandava a moda, e fora complementado com um fino cordão de ouro e um par de sapatilhas brancas. No topo de sua cabeça, um chumaço de cabelo subia, fazia a curva e se dependurava em um apertado rabo de cavalo. Diante de seu reflexo, Cibele pensou que não estava bonita o suficiente. Queria estar usando um vestido mais elegante, feito com algum tecido fino. Talvez luvas. Porém, quase já não tinha roupas no armário. Havia semanas que usava diariamente seus melhores vestidos e a pilha que eles formavam já ultrapassava a tampa do cesto de roupa suja. Aquele teria que bastar.
Quem via Cibele sentada na soleira de casa, com as mãos sobre o colo, sempre naquele mesmo horário, era capaz de pensar que a menina estava apaixonada pelo carteiro. Porém, seu verdadeiro amor se encontrava dentro da velha bolsa de couro, em meio a remetentes de diversos cantos do mundo. Estevão partira para estudar na Itália e era por ele que Cibele esperava. Ou, ao menos, por suas palavras. Como se elas equivalessem à presença de seu amado, Cibele se arrumava da melhor forma que podia e preparava uma trilha sonora especial para a ocasião. No começo, costumava botar na vitrola um disco de boleros ou um outro de ié-ié-ié, mas não conseguia mais encontrá-los. Então, apenas ligava o rádio e torcia para encontrar uma estação em sintonia com o momento.
Encostada na porta, Dona Amália olhava para filha com pesar e aflição. O pano de prato quase se desfazia em seus dentes. Não sabia mais o que fazer. Tentara conversar com Cibele, explicar a situação. Chegou a trancar a filha no quarto, mas o choro convulsivo da jovem fez com que ela a libertasse. Foi então que começou a parar de lavar as roupas. Embora ela ainda tivesse vestidos no armário, eles eventualmente acabariam e Cibele não poderia sair para esperar o carteiro apenas de calcinha e sutiã. Também escondeu seus discos em uma porta no alto da dispensa. Esperava desencorajar os caprichos da filha ou, ao menos, evitar os olhares zombeteiros e piedosos dos vizinhos. Não teve sucesso.
À noite, seu marido chegaria e perguntaria sobre a filha. Com um simples movimento de cabeça, ela já seria capaz de responder. Eles conversariam sobre uma possível surra de cinto, que logo seria desconsiderada quando Cibele passasse pela sala com os olhos perdidos e cheios de esperança de quem ainda não recebeu o que esperava. Seus pais suspirariam e iriam para a cama, prontos para mais um dia daquela absurda repetição.
Em seu próprio quarto, Cibele se jogaria na cama, alheia ao pedaço de papel em cima de sua escrivaninha. Sobre as folhas já levemente amareladas, as palavras discorriam sobre as belezas do Velho Continente e a longa viagem de navio. Contavam histórias de novos colegas, novos ares, novas experiências. No fim, concluíam que talvez fosse melhor que tudo se acabasse. Com carinho, Estevão.

Aviso:
 A partir de hoje, tentarei atualizar o blog todos os sábados. Talvez às vezes isso não dê lá tão certo, mas podem aparecer para dar uma olhada.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O monstro dentro do baú

- E se eu abrir, o que acontece? - ele perguntou.
- Você vai ficando velho, vai ficando velho... e morre – respondeu sua prima, maior e, portanto, mais sabida. Ao menos em teoria.
Os dois passavam o Natal no sítio dos avós, no interior, junto com seus pais e irmãos. O dele era apenas um bebê, enquanto o dela já era adolescente e preferia dormir e ver televisão a brincar com as crianças. Assim, tinham apenas um ao outro para passar o tempo. Vagando pelos quartos inabitados da velha casa, encontraram uma espécie de depósito em que caixas de papelão dividiam espaço com estantes que acomodavam objetos antigos e empoeirados, como o pequeno baú de madeira que ele segurava nas mãos. Sua prima apressara-se em dizer que ele não deveria abri-lo. Que era perigoso. Agora que ele sabia o porquê, estava começando a acreditar, embora não quisesse dar o braço a torcer.
- É mentira!
- Lógico que não é! Todo mundo tem um bauzinho assim e, quando abre, começa a ficar velho. Que nem o vovô e a vovó.
- Mas eles não morreram!
- Às vezes demora um pouco. Um dia, vai ficar tudo escuro e eles nunca mais vão se mexer. É o que acontece com todo mundo que abre o baú.
Ele girou a caixa nas mãos, procurando algum sinal de seus poderes sobrenaturais. Ainda sem ter certeza, perguntou:
- Você já abriu o seu?
- Eu, não! Nem vou abrir. Eu já sei o que acontece. Não vou ser nem burra de fazer uma coisa dessas.
Ele abaixou a cabeça e encarou a caixinha de madeira com as sobrancelhas franzidas. Não era verdade. Não é assim que as coisas são. Ela estava tentando assustá-lo. Ela sempre fazia isto. Que nem daquela vez em que ela disse que melecas eram pedaços de cérebro que escorriam do seu nariz. Era mentira. Claro que era mentira. Mas e se fosse verdade? Não era.
- Você está tentando me assustar!
Ela levantou e deu de ombros enquanto limpava a poeira da calça.
- Você que sabe. Se quiser abrir, abre. Eu vou embora porque não quero ficar de castigo se você morrer.
Ele ouviu os passos da prima se afastarem e tornou a olhar para o baú. Tinha que abri-lo. Precisava provar para si mesmo que nada do que ela havia dito era verdade. Lentamente, levantou a tampa do baú, fazendo ranger as dobradiças rubras e endurecidas. Então a luz se apagou e um barulho de passos ecoou pelo depósito, rápidos como em uma corrida. Enquanto se virava para trás, ele disparou atrás da prima, pronto para puxar uma briga.
Sem que ele notasse, o tempo o seguiu, apertando o passo conforme ele diminuía. Logo, logo, seu corpo estava coberto de rugas e suas articulações doíam. A comida não tinha mais o mesmo gosto. O mundo perdera seu colorido. A música, sua sonoridade.
Deitado em uma cama de hospital, ele olhou com pesar para os pés de galinha no rosto do filho, que dormia na poltrona de visitas. Pensou em sua prima, com quem já não se encontrava nas reuniões familiares. Ela havia morrido em um acidente de carro, fazia tempo. Muito mais do que deveria. Antes que seu olhos se fechassem pela última vez, pensou no quão jovem ela era. Talvez ela nunca tenha aberto o baú, no fim das contas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Espelho

Quando eu estava na escola, uma menina despareceu. Eu costumava vê-la pelos corredores, rindo, conversando, lendo. Um dia, não a vi mais. Tínhamos mais ou menos 13 anos. Não éramos da mesma sala e acho que nunca chegamos a conversar. Lembro de ter precisado de um tempo para entender de quem todos estavam falando.
Lembro também do choro, inicialmente barulhento e depois cada vez mais silencioso, que enchia os corredores, o pátio, a quadra e as salas de aula. Era impossível escapar dos olhos vermelhos dos seus amigos, assim como dos rostos tristes e cansados de seus pais, que apareciam em todos os canais de televisão implorando para que sua filha fosse encontrada. Com o tempo, eles também sumiram. Foram substituídos pelos parentes de alguma outra vítima. De um sequestro ou de um assassinato, talvez. Ela nunca voltou para casa.
Um ano depois, todos na escola já tinham retomado suas vidas. Às vezes encontrávamos um dos amigos daquela menina sentado em algum canto, com um olhar perdido, mas pouco a pouco eles retomavam suas rotinas. Foi nesta época que os boatos começaram. Um garoto disse tê-la visto no espelho, enquanto se arrumava para sair de casa. Alguns acharam graça da história, outros ficaram verdadeiramente com medo, muitos disseram que era uma brincadeira de mau gosto. Eu não me lembro como reagi. Talvez tenha rido. Sentado contra a parede, ele sequer sorria. Falava olhando para o chão e demorou para parar de tremer. Era tudo parte de um teatro, pensamos.
Como fazem as lendas urbanas, a história começou a se espalhar. Não havia um ritual, nem consequências graves: ela simplesmente aparecia no espelho, com os olhos fixos em você. O pânico se instalava aos poucos, seguido do tremor e das lágrimas. Era o que contavam os que chegavam na escola ainda em choque. Outros faziam-se de valentes e diziam que a tinham espantado com alguma palavra ou gesto. Uma destas pessoas saiu um dia do banheiro com as pernas bambas, suando frio. Precisou ser levada para o ambulatório. Na maca, disse que tinha mentido, que tinha mentido, que não queria morrer, que não queria morrer, que não queria morrer...
Três anos depois, deixamos para sempre as paredes azulejadas e as grades do colégio. A história da menina desaparecida ficou para trás. Os mais novos fizeram com que ela permanecesse, embora a contassem com mais desdém, sem o horror que transparecia nos olhos de meus colegas. Tempos depois, soube por minhas sobrinhas, que agora ocupam aquelas mesmas carteiras, da lenda da menina que aparecia no espelho e sumia sem uma palavra. Não havia nenhuma menção ao desaparecimento real. Aos poucos, comecei também a acreditar que nada daquilo havia acontecido.
Até o dia em que me encontrei com um antigo colega de classe no supermercado. Ambos escolhíamos tomates, completamente alheios ao passado, quando percebemos a presença um do outro. Ele sorriu para mim e nós começamos uma daquelas conversas sem jeito de antigos conhecidos. Perguntei o que ele andava fazendo, se tinha casado, onde estava morando e, em um dado momento, perguntei se ele se lembrava da história da menina no espelho. Ri e falei de minhas sobrinhas e de como a lenda persistia. Demorei para notar que ele não sorria mais. Olhando para o chão, ele se despediu com uma voz morta e foi embora.
Naquela noite, pensei na estranha atitude de meu ex-colega de turma e no que poderia ter acontecido. Enquanto escovava os dentes, franzia as sobrancelhas diante do espelho, tentando encontrar uma resposta que nunca vinha. Foi então que eu a vi. No canto do espelho, como se estivesse logo atrás de mim, ela me olhava com desespero. Os braços largados ao lado do corpo, a boca entreaberta, à procura de palavras sufocadas em sua garganta. Os olhos não me deixavam. Dentro deles, pude rever os corredores frios e cheios de lágrimas e a dor que pesava sobre as aulas. Quando dei por mim, estava no canto do banheiro, no chão. Meus braços trêmulos envolviam minhas pernas, igualmente bambas. No calor do meu rosto, senti a primeira lágrima.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ernesto

Ernesto baixou a porta do bar, como fazia todos os dias. Deixou destrancada a portinhola de ferro. Precisava resolver alguns problemas antes de ir embora. O vaso do banheiro estava entupido. Ernesto havia colado um papel na parede pedindo para que o papel fosse jogado na lixeira, mas de nada adiantou. A descarga também não era muito potente. Além do mais, precisava também passar um pano para tirar a urina que se acumulava no chão conforme aumentava o número de garrafas vazias sobre as mesas. Senão, ninguém aguentaria o cheiro no dia seguinte. Nem ele, nem os clientes. Percebeu que um fio de água corria pela parede e colocou algumas folhas de jornal no chão para conter o fluxo. Mais uma despesa.
Ernesto trabalhava sozinho no bar. Às vezes pensava em contratar alguém, mas não tinha dinheiro. Também não tinha nenhum parente que pudesse ajudá-lo, nenhum filho para dar uma mão depois da aula. Fora casado, uma vez, e sua esposa costumava trabalhar no balcão enquanto ele se ocupava dos salgados e ovos coloridos, na cozinha. Mas não estavam mais juntos. Agora, a única família que tinha era seu pai, doente e cansado, que mal conseguia se levantar da cama.
Ernesto abriu o caixa, puxou seu banquinho para o balcão e começou a contar. Em uma folha de papel, anotava os números que a velha calculadora lhe dizia. Precisava levar algum dinheiro consigo. Tinha que passar na casa de seu pai, no dia seguinte, para pagar a cuidadora – uma gentil vizinha que perdera seu emprego como auxiliar de enfermagem. O resto, guardaria no cofre.
Ernesto passava as mãos pelos cabelos ralos e grisalhos quando ouviu um barulho. Fazia algumas semanas que escutava sons estranhos vindos dos fundos do bar. Da primeira vez, pensou que fosse algum cliente deixado para trás, bêbado, que se escondera em alguma canto durante uma brincadeira idiota e ficado por lá. Mas não. Ernesto revirou o bar durante quase uma hora, olhando mais de uma, duas, três vezes os cantos mais escondidos. Não encontrou ninguém. “Devem ser ratos”, pensou, e nunca mais voltou a procurar.
Ernesto, porém, não ficou tranquilo com sua conclusão. Os barulhos eram muitas vezes altos demais para ratos. Ernesto tinha medo de que fossem fantasmas ou algo do tipo, mas se apressava em dizer a si mesmo que isto era bobagem. Estas coisas não existiam. Mas, então, o quê? No dia seguinte, tudo estava na mais perfeita ordem. Nem sequer um copo fora do lugar. O que poderia fazer tanto barulho sem causar um mínimo de desordem?
Ernesto decidiu que era hora de descobrir de uma vez por todas quem era o responsável por aquela algazarra. Pulou de cima do banquinho e, dentro da inutilizada cozinha, acendeu todas as luzas do pequeno botequim. Começou olhando embaixo da pia. Nada. Passou para o depósito, os banheiros, o canto onde guardava os engradados cheios de cascos vazios... Nada. Refez o caminho de volta para o balcão, gritando, chamando, perguntando quem estava lá. Nada. Apertou o interruptor ao lado da porta da cozinha e as luzes se apagaram. De costas para a escuridão, sentiu uma mão em seu ombro.
Ernesto virou-se, assustado. Onde antes havia apenas sombras, agora estava um homem que ele demorou para reconhecer. Era ele. O mesmo rosto, a mesma altura, as mesmas roupas. Ele próprio. Quase como um espelho, embora não refletisse os olhos assustados e a boca entreaberta de Ernesto. Pelo contrário: a cópia parecia calma e começava a esboçar um sorriso nos cantos dos lábios.
Ernesto começou a sentir um vento frio que lentamente o congelava. Primeiro, foram seus pés e braços. Pouco a pouco, sentiu o tronco e o pescoço endurecerem. Não conseguia mais se mover. Então o frio atingiu seu rosto e começou a abrir caminho por todos os seus orifícios. Suas narinas queimavam e seus ouvidos doíam conforme o sopro gelado se estendia para seu interior. Ernesto viu o reflexo sorrir. Então não viu mais nada.

Ernesto baixou a porta do bar, como fazia todos os dias. Deixou destrancada a portinhola de ferro. Precisava resolver alguns problemas antes de ir embora. Enquanto fazia a ronda pelo banheiro e o caixa, ouvia apenas o silêncio. Não havia mais nenhum barulho. Um cheiro, porém, se sobrepunha ao do banheiro, cada vez mais fétido conforme a água suja escorria por entre os azulejos e alimentava os fungos que cresciam no concreto. O cheiro forte invadiu as narinas de Ernesto, mas ele não tinha com o que se preocupar. Era só mais um casco vazio entre os muitos espalhados pelos cantos.